O benfeitor e o Anjo do Senhor

Vladimiro Rocha decidiu ser benfeitor mais ou menos a partir do momento em que começou a tomar psicofármacos e voltou a frequentar a Igreja. Tinha cinquenta e dois anos e estava careca por causa dos nervos. O cabelo começou-lhe a cair quando ainda era casado, ali pelos quarenta e cinco. Dois anos mais tarde, quando se divorciou, só lhe restava uma coroa de pelo como um franciscano dos antigos. Pouco depois, quando o filho entrou na universidade, a sua cabeça estava inteiramente despovoada, desértica e luzidia.

Por essa época também emagreceu bastante e os ossos formaram ângulos agudos por todo o lado. A careca ganhou então grande destaque e o bigode também, um bigode farfalhudo e grisalho que adquiriu uma proporção deveras apocalíptica face a tanta magreza.

Pressentindo um futuro de coisas más devido à fragilidade da cabeça, Vladimiro Rocha decidiu vender as lojas de que era proprietário no centro da cidade, bem como os dois apartamentos de três assoalhadas que possuía na zona turística, junto à praia. Também se desfez de títulos, ações e obrigações. Ficou apenas com um hectare de terra e a vivenda à entrada da cidade, na zona leste. Depois começou a tratar-se com psicólogos, psicanalistas e psiquiatras e a coisa foi-se aguentando.

Mas percebia-se que não estava bem. A sua forma de caminhar, ora muito agitada, ora demasiado lenta, os estados catalépticos em que mergulhava e sobretudo a mistura da calva com o bigode e o olhar desorbitado, ainda por cima azul, levantavam sérias suspeitas e as pessoas diziam logo:

– O gajo não é bom da cabeça.

Depois inventavam histórias incríveis, que é o que acontece quando se tenta compreender o porquê de saltar a tampa a certos indivíduos. Os amigos, que eram poucos e oriundos da atividade comercial, afastaram-se, limitando a convivência a acenos de mão, breves palmadas nas costas e conversas muito rápidas, sempre a fugir.

Apesar de tudo Vladimiro Rocha levava uma vida normal para um homem da sua idade e no seu estado, meio maluco, divorciado, pai de um único filho e senhor de boas posses. Era um homem que, de resto, apreciava um certo luxo, mas sem exageros, um luxo discreto, saudável, visível no aprumo do vestuário, na escolha dos restaurantes, no trato em geral.

Os médicos convenceram-no a manter-se ocupado, corpo e alma sempre ocupados, enquanto o alimentavam com ansiolíticos e antidepressivos e então ele pôs-se a cultivar o terreno à volta da casa e depois vendia os produtos ao Mercado Municipal e, quase sem querer, continuava a ganhar dinheiro.

À noite, um período sempre muito perigoso para sãos e loucos, ocupava-se com a leitura de livros técnicos sobre agricultura. Uma vez, porém, transitou abruptamente do cultivo do tomateiro holandês para a Bíblia Sagrada e dali nunca mais saiu, afundando-se, noite após noite, no abismo do Senhor dos Exércitos e do seu povo devoto e ao mesmo tempo ingrato, sempre a cair em tentações e idolatrias, aquele bando de judeus lá do fundo dos tempos.

Vladimiro Rocha conhecia muitas das histórias devido à sua educação católica, embora andasse afastado da Igreja desde os quinze anos, mas ao relê-las foi encontrando pouco a pouco um novo sentido e uma nova dimensão.

E de repente começou a ter sonhos divinos.

Vladimiro Rocha sonhava com o Anjo do Senhor e o Anjo do Senhor dizia-lhe:

– Filho do Homem, escuta a voz do teu Deus. Abandona a tua terra e parte para África.

E ele, deslumbrado perante a aparição do Anjo, cuja figura não conseguia discernir, mas que possuía umas asas enormes, resplandecentes e protetoras, dizia:

– O que hei de fazer eu em África e como hei de sobreviver?

E o Anjo do Senhor respondia-lhe, ríspido:

– Não questiones o teu Deus. Ergue-te e parte já para África.

Vladimiro Rocha despertava sobressaltado, confuso e extraviado e era como se de facto tivesse recebido a visita de um ser extra biológico, mas também achava que tudo aquilo era apenas mais uma prova da sua loucura.

Um certo domingo, no entanto, resolveu ir à missa na igreja da freguesia. Corria o mês de março e em todas as coisas se notava a chegada da Primavera e também fazia um pouco de frio, aquele frio que desperta e convida a sair.

Vladimiro Rocha foi a pé por um caminho antigo, empedrado, sempre a descer, e quando chegou à igreja encontrou-a igualzinha ao tempo da infância, quer por fora como por dentro, e até as pessoas que lá estavam lhe pareceram as mesmas de há trinta anos, com os mesmos rostos ausentes e as mesmas roupas decentes, e o padre também era o mesmo, era de facto o mesmo, só que trinta anos mais velho, e apesar disso dizia as mesmíssimas coisas de há trinta anos, tintim por tintim, e foi precisamente esta ausência de tempo que o fez sentir-se bem, tranquilo, lento e iluminado e a partir daí passou a ir à missa todos os domingos, à primeira missa da manhã.

(Continua… provavelmente na próxima quinta-feira)