O patrão saiu em viagem

Um menino mulato entrou a correr no bar onde eu estava a beber cerveja. Empoleirou-se no balcão e pediu uma Coca-Cola. O empregado, que se movia com uma lentidão de fazer sono a qualquer um, abriu a arca congeladora e tirou uma garrafa. O menino recebeu-a, bebeu um pouco e parou para ganhar fôlego e a seguir bebeu à vontade, como se estivesse com muita sede, bebeu até lhe saltarem lágrimas por causa do gás do refrigerante. Olhou para mim e sorriu. Depois, fixou a garrafa e arrotou. Ainda faltava um pouquinho. Respirou fundo e bebeu o resto de um só trago. Deixou ficar a garrafa vazia no balcão, disse obrigado e saiu a correr.

– É o filho do patrão – informou o empregado.

– O patrão é branco? – perguntei.

– É um português.

– Ah sim? – disse, assim com um espanto desnecessário, e pus a garrafa de cerveja à boca.

Eu andava na estrada há cerca de cinco horas, quando por fim parei naquela cidade, situada mais ou menos no meio da Zambézia. Era suja, húmida e pegajosa, metida no meio de uma vegetação composta essencialmente por mangueiras e palmeiras, na beira do rio Licungo. Sempre achei o sítio insuportável, mas também sempre me senti atraído por ele, era um lugar enfeitiçado, e nas minhas viagens através da província parava lá para beber ou comer qualquer coisa.

– O nome dele é João – adiantou o empregado.

– O nome do miúdo? – perguntei.

– O nome do patrão – disse o empregado. – O senhor João. Chegou em 90, no tempo da guerra.

Não era meu costume parar naquele bar em concreto, que fazia parte de uma pensão na estrada principal, mas assim calhou desta vez.

A pensão chamava-se João da Mercearia. Pensão do João da Mercearia. Um nome que eu poderia considerar estranho se nas minhas andanças pela Contracosta não tivesse visto outros muito mais estranhos, como por exemplo Estalagem do Motorista Cansado, Hotel A Noite Já Começou, Restaurante É Preciso Comer para Engordar, Barraca Vão Falando, Banca Mãe da Dina, Bar No Mundo Não Há Pressa.

– Como é o senhor João? – perguntei. – Se calhar conheço-o.

– É baixinho e careca – disse o empregado.

– Ele está cá, no hotel?

– Não. Viajou para a Zâmbia. Volta na próxima semana.

Depois, o empregado contou-me que o senhor João tinha quase 80 anos e era casado, ou talvez acasalado, com uma negra se calhar quarenta anos mais nova do que ele e seguramente dez centímetros mais alta, de quem tinha aquele filho, chamado Júnior, com doze ou treze anos.

Eu disse:

– Poça!

E o empregado retorquiu:

– É assim mesmo!

Eu quis saber se a mulher do senhor João estava na cidade e ele contou-me que não, que tinha ido com o patrão para a Zâmbia, que sempre que ele viajava, fosse em negócios ou em passeio, ela acompanhava-o e de vez em quando o Júnior também ia com eles, que eram todos muito viajados por aqueles países ali à volta, da Tanzânia à África do Sul.

– Quem trata do hotel quando ele está fora? – indaguei.

– A cunhada dele – disse o empregado e esticou o queixo para a frente. – Essa mesmo que vai entrar agora.

Virei-me para a porta e dei com uma moça espampanante, talvez com 25 anos, não mais que isso. Parecia ter saído diretamente de um videoclip de Kuduro, quer na forma como na roupa, e assim à primeira vista não inspirava confiança nenhuma. Debruçou-se no balcão, mesmo ao meu lado, e pediu uma Coca-Cola. O empregado abriu a arca congeladora e tirou uma garrafa. Ela bebeu um pouco. Depois olhou para mim e sorriu.