Ovos estrelados e um buraco negro

Maravilhoso tempo este no qual oito telescópios e um algoritmo conseguiram fotografar aquilo que realmente é invisível. Um buraco negro onde supostamente tudo desaparece até mesmo a luz. De um buraco negro nada sai.

Mas o magnífico tempo novo já não está entregue apenas à perícia e capacidade de um olho humano. As nossas conquistas e todas as máquinas que hoje são já uma extensão de nós permitem-nos ver mais longe e permitem a maravilha de podermos não apenas sonhar com o invisível, mas verdadeiramente alcançá-lo.

A maravilha finalmente chegou e conquistámos a dobra espaço/tempo. Confesso que a imagem deixa-me com a mesma felicidade de olhar para um quadro perfeito, ouvir uma música daquelas que parecem tocar o invisível em nós, ou um livro que nos conta o indizível que somos.

Ou então é como voltar à infância e aos filmes de ficção científica, esses mesmos que foram a primeira passagem para a descoberta do que era então apenas a magia e a ficção. As naves espaciais, a vida fora da terra, os seres estranhos, os mutantes, o teletransporta, os amigos ou inimigos de galáxias distantes.

Eu e o meu irmão no cimo das escadas à espera da contagem decrescente para a largada do nosso foguetão. Assim mesmo, só armados de imaginação. O nosso fato espacial de calções e joelhos esfolados, o nosso capacete de cabelos despenteados ao vento, a nossa botija de oxigénio amarrada ao coração e ao ar. Comandante e médica espacial, doutorados em fantasia extrema e com a capacidade de viajar pelos planetas sem sair do cimo daquelas escadas.

Mais um pouco, e havíamos de deixar a banheira escorregar connosco dentro pelos degraus. A velocidade possível acabaria num despiste interestelar, com arrojo e audácia e talvez mais uma daquelas medalhas afixadas na testa ou nos joelhos.

Aos outros parecia mesmo que tínhamos caído pela centésima vez pelas escadas. Os outros pensariam que as banheiras de plástico nunca seriam naves espaciais. Os outros só viam dois miúdos a tentar a sorte e a desafiar o equilíbrio sempre precário da aventura.

Mas nós víamos a nossa querida nave espacial a aterrar num planeta estranho e havíamos de chegar à terra triunfantes e com mais um lugar no mapa da nossa pele colorida pelo sol.

Sabíamos escapar a todos os buracos negros e a todos os perigos de galáxias distantes. Lutávamos contra os monstros do espaço sideral e regressávamos triunfantes a casa para comer esparguete, bolinhos na frigideira e molhar pão de ontem em ovos estrelados. De onde viriam os ovos estrelado se não das estrelas?

Toda a gente sabia que era isto mesmo que comiam os astronautas.

Nós tínhamos estado lá, em carne, osso, e nódoas negras.

Sabíamos que era difícil acreditarem em nós. Mas também sabíamos que mais tarde, alguém iria conseguir fotografar a verdade.

E aí está: dentro daquele buraco negro estou eu, o meu irmão, a nossa banheira e o cimo das escadas. A nossa foto mais do que perfeita. Linda como um dia de sol visto do espaço da nossa casa. Esse buraco negro de onde saímos intactos para o futuro.