Luanda porque será?

Mas afinal o que tem Luanda que nos prende quando estamos loucos por sair? Que desencantos tão encantadores tem Luanda que nos seduz e nos enraivece? Que magnetismo é este que nos atrai e nos repele? Que encantamento é este que nos enleva e desilude? Nos deslumbra e nos decepciona? Que sortilégios? Que feitiços? Que bruxedos? Que domínio tem Luanda que nos alicia e nos repele? Luanda é perversidade e fascínio. É convergência e discórdia. É caos em movimento contínuo.

Luanda. Que raio de encantos tens tu que me desencantas e me deleitas, Luanda?

Será a silhueta daquela ilha que desenha o seu perfil ali mesmo, diante dos nossos olhos? Ou o mar que a banha e beija os teus pés na marginal de cimento e verdes? Serão os teus dias loucos que nos consomem qual labareda demolidora? Será a insanidade que percorre as veias das tuas noites possuídas pelo semba, quizomba, kazukuta, quilapanga? Funge e kissângua, mufete, kitaba, kikuanga e calulu?

Será o calor que sufoca, ensopa, amolece, que convida à frescura de um mergulho, a afogar a sede numa cerveja gelada?

Serão os óbitos, os kombas intermináveis que, aos mais desprevenidos podem parecer tudo menos um acto de dor? Será a cortina fria do cacimbo que turva o ar e, há quem diga, as mentes? Serão as noites de infindo Verão que seduzem, desencaminham, enlouquecem, arrebatam? Será porque Luanda é um caldeirão onde se cozinha uma mestiçagem que dilui origens, tribos, cores, famílias, pátrias, linhagens?

Será porque? Porquê?

O que tem Luanda que nos prende quando estamos loucos por sair?

Porquê? Porque Luanda não se prostitui. Não se desonra. Luanda não se macula. Não se avilta. Não se humilha, nem se perverte, nem se amesquinha. Luanda não afronta. Não desconsidera. Não ultraja os seus filhos. Os que são, os que estão, os que vieram, os que chegaram ou já partiram. Luanda não devora os seus filhos. Mói, cansa, mas não mata. Viver em Luanda é um risco calculado. Desejado e malquisto. Porque será?