14 euros e 99 cêntimos

Voltei a reunir todos os meus escritos. Tenho-os aqui ao lado, no meu quarto, dentro duma caixa de plástico que comprei numa grande superfície. A caixa custou 15 euros. Ou talvez 14 euros e 99 cêntimos. Os escritos não têm valor. Não assentam em coisa alguma. Não revelam arte nem inovação. São nada. Os meus escritos são nada. Nos últimos tempos, porém, tenho pensado muito neles.

A minha cabeça gira em torno duma esgotante sede de palavras-luz e daquilo que sinto como tremenda ausência de originalidade e talento. Não sei explicar o que é, mas também não busco compaixão, é assim mesmo, é avesso do que acabaste de ler. Isto.

Escrevo desde os nove ou dez anos, mas escrevo coisas sem brilho, palavras que me fazem passar fome e secam e fossilizam. Às vezes penso que estou a transformar-me pouco a pouco em pedra, cada vez mais pesado, cada vez mais frio, vastas áreas de mim são já noite no deserto.

Uma vez, para me aquecer, reuni todos os meus escritos e peguei-lhes fogo.

Eu tinha dezoito anos na altura e aquilo pareceu-me um ato de purificação, algo perfeitamente aceitável, como os horrores da Inquisição o foram durante tanto tempo – as pessoas viam as bruxas e os judeus a arder na fogueira e achavam normal, era bom para o seu equilíbrio, ajudava-as bastante na reflexão sobre o seu posicionamento social e o sentido da vida. De certa forma continua tudo igual. O mundo arde sem fim diante dos nossos olhos, arde todos os dias diante dos nossos olhos inocentes.

Ainda assim, contrariando o avanço da escuridão e das areias movediças, tornei a escrever. E continuo a escrever. Farto-me de escrever. Para dizer a verdade, ainda penso como naquele tempo, quando era miúdo e a ideia de salvação adquiria contornos físicos e eu não parava de dizer:

– Só a escrita me pode salvar.

Era o que eu dizia atrás de dizer:

– Só a escrita me pode salvar.

E dizia-o com a obscura determinação de quem faz uma prece.

Agora, no entanto, assumo que a minha cura deve ser outra, mas também digo que sou feliz por não encontrar vontade nem espaço para queimar outra vez os meus escritos. Olho para a caixa de 14 euros e 99 cêntimos, um monte de cadernos e papéis lá dentro, e fico paralisado. Já por duas vezes estive prestes a riscar o fósforo, confesso, mas depois dei comigo a pensar que sou demasiado vaidoso para isso. Sou vaidoso e a vaidade arranha-me a pele por dentro.

– Só a escrita me pode salvar.

Nos tempos que correm, escrevo sem medo que as palavras morram à fome ou enlouqueçam de solidão. Escrevo como se as palavras fossem estrelas no céu dos meus enganos e abandono-as para sempre no dia anterior. Amarroto-as dentro das histórias como maços de tabaco vazios ou papéis inúteis, mas depois arrependo-me e desdobro-as à procura de magia e poesia e sorrisos, desesperadamente à procura de luz, sonho e amor. Isto.

Mastigo as palavras, mas não digo nada.

Às vezes vejo que as palavras preferem o silêncio e evitam dar conselhos. Vejo que absorvem os ruídos que despontam no mundo ainda antes de serem identificados. Vejo também que são fantasmas e lembranças horríveis especados no limiar da porta. Vejo que dizem não ao mal e explicam a forma como se cria a dor.

As palavras são a abundância perdida das coisas raras e abreviam o caminho para o abismo. Podemos até senti-las como o corpo, o nosso próprio corpo, pleno e inconfundível, o nosso corpo esquecido no balanço perpétuo dos homens, o nosso corpo à espera da salvação.

Escrevo, sim, escrevo e a palavra é luz. A escrita, contudo, é escura e cheia de sombras. A escrita é uma morte constante. A escrita sofre de febres altas e fala com demónios. A escrita esmaga as palavras contra quem as pronuncia e desfigura os segredos do ser no vazio. A escrita é o avesso do que acabaste de ler. Isto. Nada mais. O resto é pura presunção e cabe numa caixa de 14 euros e 99
cêntimos.