Augusta

O gastalho estendia a sua presença pela irregularidade de uma calçada polida por lembranças. Outra sombra, encostada à esquina da portada, adormentava as penas sob a frescura intervalada de um araçazeiro tortuoso. Era um mundo de vultos disformes. Augusta aguardava, como paciente predadora, a hora derradeira. Enquanto isso, na ausência de querer, restava-lhe o bordar da toalha de gala para a saleta fechada.

Havia passado boa parte da manhã a desfazer os pontos da tarde anterior – sem motivo aparente, para além de um artificial sentido de apuramento desprovido de cânones e estranho a critérios fixos. Tinha um pacto com a morte: acabado o bordado, já nada a prenderia. Aquele labor, encetado numa mocidade bem presente (para um enxoval supérfluo), trazia nos traços azulados do desenho o mapa de um tesouro nunca encontrado.

Meio-dia. No terraço da vizinha a garotada brinca de gente grande. Augusta pousa a tesoura sobre o linho e deixa-se mergulhar no enredo infantil. O filho do Arrais dá ordens à infantaria descalça que se dispõe à frente do forte (um amontoado de aduelas empinadas ao longo de uma vara de lagar emérita). Ao lado, o roliço Antonino, de saca de lona enfiada, faz de capelão, elevando as broas (que subtraiu à avó) sobre um altar amanhado com duas caixas de madeira. Albino dá o repique numa garrafa sem fundo, para gáudio do Pedrinho que, atirando ao ar um molho de espadinhas, dá eficácia sonora à girândola que chove sobre a continência aprumada da milícia. (Que engano mais persistente esse, o de querer ser grande.)

A pequena cesta de linhas tinha direito a banquinha própria, entronizada à direita da solidão da anciã. Aliás, o objecto ganhara foros de companhia predilecta, compensando a inutilidade das horas ociosas com a certeza de uma presença constante. Uma vez por outra, rendia-se à tarefa de ser o que era. A escolha das linhas obedecia ao vagar de uma vista cansada, na indecisão habitual de quem nunca fora segura da sua senhoria. Recomeçava. Fora da órbita do dedal prateado, nada. O universo calava-se, vergado sob a leveza do gesto estanque. Nem vida, nem gente. Na orla daquele terreiro, fronteirando a indiferença da mulher, mil e um contos dispersos.

- “Por hoje, basta!”

Quando encontraram o cadáver de Augusta, pacificamente disposto no leito, não estranharam o dedal no dedo. Havia partido à traição. Nunca se viu quem jurasse pela honra da morte (tão pouco pela verdade ou constância da vida). A toalha permanecia inacabada, dobrada em quatro sobre o colo da velha. A cesta, aberta, deixava adivinhar um último gesto, uma derradeira hesitação. A pretensão sobrevivia à pretensora (como, de resto, é natural: que seria de nós se cada desejo vivesse uma só vez e cada sonho perecesse com o sonhador?) No frio fracasso de um corpo sem alento, a vitória plena de alguém que viveu, à sua maneira.

Triste fim, dirão alguns. Quem a conhecesse, de verdade, não derramaria lágrimas de lamento. Augusta tinha morrido antes de dar por terminado o caminho. Quantos, vivendo, deixaram de caminhar?