O centralismo da capital, “alfacinha” ou “lancha”

Estas semanas, o Porto Canal tem feito serviço público, tem discutido de forma séria o centralismo. A verdade é que os portugueses são centralistas por sua natureza, está-nos na massa do sangue, mais do que qualquer outro país da Europa e até quiçá do Mundo.

Recordo-me numa formação em Castelo de Vide em que estive presente e uma assessora dum ex-Presidente da República, que começou a conferência “quando sai de Portugal…”, ela queria dizer Lisboa, mas para ela estar ali na “Sintra do Alentejo”, mais um demonstração do centralismo, era estar “fora de Portugal”.

A verdade é que o sentimento que os madeirenses, os portuenses, os alentejanos, os bragantinos, os algarvios, egitanianos ou de outra qualquer região do país sente em relação em Lisboa é também um sentimento que qualquer habitante de um concelho, vila ou freguesia fora do Funchal sente em relação ao Funchal.

Posta esta introdução, há vários pontos a colocar de forma séria: se eu perguntar quais são as capitais da Suíça, Austrália, Estados Unidos da América, Brasil, somos capazes de errar nas suas capitais, pois o desenvolvimento económico de várias cidades destes países que mencionei não está centralizado numa única cidade, muito menos na capital política desse país.

Quando verificamos que todo o centralismo é Lisboa pode-se colocar o mesmo paralelismo que os portugueses do Brasil colonial sentiam em relação a Portugal, ou até mesmo que os europeus sentem em relação ao domínio do eixo franco-germânico.

Tal como no século XIX, em que o Brasil conquistou a independência de Portugal, dois séculos depois caminhamos para um Portugal que poderá vir a pedir a independência de uma Lisboa que vive dependente do resto do país. O investimento no país é centrado na capital, desde eventos culturais, desportivos, económicos, centros de decisão e outros são todos ali. Repare-se, até no futebol a seleção é capaz de fazer toda a qualificação para o Europeu centrada em Lisboa, sem ir a qualquer outra região.

A melhor personificação do centralismo são aquelas pessoas, que todos nós conhecemos, que têm um grande carro, um daqueles mesmos bons, que os filhos estudam nos melhores colégios do país ou até no estrangeiro, que têm as roupas de estilistas famosos, com nome tão difícil de pronunciar que, quando se acaba a roupa, já está na altura de ir para o lixo. Perante tudo, isto… Essas pessoas, sem falar na dívida enorme que possuem, vivem numa barraca, mas não é numa barraca qualquer, é numa com uma antena parabólica e possui milhares de canais estrangeiros… Resumidamente, isto é, Lisboa, vive num país na miséria, mas aparenta ser melhor que todos os outros. No meio de tudo… Como Lisboa não tem capacidade para pagar esta vida de luxo, precisa da ajuda dos familiares que possuem casas humildes, têm uma vida humilde e fartam-se de trabalhar para sustentar, muitas vezes estes familiares…

Lisboa é isto! Mas o sentimento dos portugueses em relação a Lisboa é muitas vezes o mesmo que as pessoas na Madeira têm em relação aos “lanchas”, epíteto que a costa de baixo da ilha dá aos funchalenses.

O centralismo dos “lanchas”, ou até do “Funchal de baixo”, pois acima do Campo da Barca, acima da Penteada e atualmente muito acima da estrada monumental, o Funchal acaba. Muitos conhecem a doença do centralismo, mas poucos sabem sugerir as soluções.

Por exemplo, tal como acontece no Funchal, acontece em Lisboa, a rede de transportes está desenhada para o centralismo, tudo termina no “Centro”, daí a expressão. As escolas com todas as áreas e agrupamentos estão no Funchal. Por exemplo, até a gestão de infraestruturas fora do Funchal são geridas a partir do Funchal, sem que os locais tenham uma palavra a dizer, é o Parque Temático, são as Grutas, infraestruturas desportivas e outras… Como se pode então descentralizar? A descentralização é desburocratizar, é dar mais autonomia e gestão às instituições existentes nessas freguesias, mas isso só poderá ser possível com um quadro de governança que incentive a contratação baseada no mérito. É necessário os locais terem uma palavra a dizer sobre o que querem. Mas isto acontece em todo o país, é em Lisboa que se decide se um comboio pode passar por Évora e seguir para Elvas ou então nem existir, que é o que aconteceu. É mesmo em Lisboa que se decide que um professor de Freixo de Espada a Cinta deverá ir para Lagos dar aulas. O centralismo é isto!

Regionalização urge, não para amanhã, mas sim para ontem. Portugal precisa da independência de Lisboa, por via de ficar eternamente centrado numa cidade sem que o
país conte.