Uma ferida na escuridão

Abri os olhos e reparei num inseto esquisito que estava na almofada, imóvel e de patas para o ar, como se tivesse passado a noite a dormir comigo. Fiquei perplexo e de certa forma assustado. O bicho não parecia perigoso, nada disso, nem sequer era muito grande, mas vê-lo assim tão à vontade provocou-me um arrepio. Engatilhei o indicador no polegar e corri-o com um disparo. O inseto desapareceu no vazio e um pensamento ruim assaltou-me:

– Não me querem aqui. Não me querem na Missão. Não me querem neste país.

Rolava 2010 e eu vivia há dois anos na Alta Zambézia, onde trabalhava como professor voluntário numa congregação católica. Um certo fastio começava a germinar em mim, um cansaço mesquinho, uma fraqueza espiritual também, e avançava como uma doença silenciosa, obedecendo à rota vital que nos leva do deslumbramento à realidade e da realidade à desilusão.

Um dia comentei isto com um cooperante português que viera dar aulas na escola da Missão e ele usou inúmeros argumentos para me contrariar, realçando acima de tudo que a desilusão é a arma e o escudo dos fracos. Eu fiquei impressionado a pensar nisso e estava quase a ceder, mas de repente o tipo desconcertou-me:

– Um ano em Moçambique é mais que suficiente – disse ele.

– Mais que suficiente para quê? – quis saber.

– Para dizer chega!

Não é nada suficiente, contrapus. É sim, tornou o gajo. Há quantos anos vives em Lisboa? – perguntei-lhe. Desde que nasci, há trinta e quatro anos, respondeu-me. E eu: Então Lisboa já te chega, já é mais que suficiente. E ele: É precisamente por isso que estou aqui. E eu: Tu estás aqui apenas porque queres voltar para Lisboa ao fim de um ano.

O cooperante era um tipo extremamente otimista. Transpirava felicidade, confiança e determinação por todos os poros. Gostava muito de camisolas decotadas e coloridas e usava um monte de colares ao pescoço. Tinha viajado por todo o mundo – cinquenta e quatro ou cinquenta e oito países – e estava sempre disponível a ir mais além. Dar aulas em África era mais uma das suas aventuras.

De facto, nada podia correr mal. Por mais que lhe custasse o isolamento e o cerco das montanhas, procurou sempre motivos para se alegrar. Comprou uma mota e percorreu distâncias inacreditáveis de cabelo ao vento e sorriso firme. Saía para se divertir quase todas as noites e aproveitava qualquer oportunidade para se ausentar da Missão. Regressava sempre sorridente e bem-disposto, belas gargalhadas ecoando à sua volta, amigos e mais amigos, festas e mais festas.

Eu gostava muito de falar com o cooperante, mas éramos esquivos, como se andássemos a fugir de coisas que ninguém pode saber. Aliás, esta foi sempre a marca de água das relações entre os ocidentais que eu conheci em África. Andávamos a fugir uns dos outros, mas desesperadamente ansiosos por essa companhia, como se cada um fosse um oásis no deserto da solidão.

Deslumbramento, realidade, desilusão…

O incidente aconteceu quase no fim do ano, na noite de 1 para 2 de novembro de 2010. O cooperante vinha da cidade ao volante da sua mota, quando uma pedra voou na escuridão e acertou-lhe em cheio na cabeça. Naquela zona conduz-se sem capacete, pelo que o olho direito quase lhe saltou da órbita. Apareceram logo dois indivíduos querendo socorrê-lo, na certa eram os atacantes. Aparentemente, o objetivo era roubar a mota. No mesmo instante, surge outra mota com duas pessoas. Os bandidos fogem sem olhar para trás. O cooperante perde os sentidos. É levado para o hospital e entra em coma, mas recupera na manhã seguinte. Ele está muito transtornado e confuso. Tem a cara completamente inchada, tão inchada que nem consegue abrir os olhos. A situação é grave, muito má.

– Um ano em África chega – dizia ele.

Fechei os olhos. Deixei-me ficar estendido na cama. 2010 estava a ser difícil para mim. A minha tia Teresa tinha morrido em março, depois estive muito doente com uma infeção intestinal e a seguir apanhei malária e havia ainda outros problemas a esmagar-me relacionados com a natureza do bem e do mal.

Quando tornei a abrir os olhos, o inseto esquisito estava outra vez na almofada.