Eu pensava que ia falhar porque tenho má pontaria

Sou tão feliz ao teu lado, sabes, tão feliz mesmo, mas às vezes dou comigo esmagado por pequenas coisas, coisas tontas que me inquietam, a pensar que quanto mais se ama mais se sente a presença do fim e do adeus, a desarmonia dos afetos e o eclipse do ser, uma certa escuridão. De facto, tudo é biológico. Ninguém é a salvação de ninguém. Esse fardo pertence aos deuses. O nosso é apenas o da solidão, porque sobra sempre em demasia na hora de fazer a conta de existir e é muita no sonhar, tanta no morrer.

Às vezes – ia eu a contar – nem sequer o amor tem voz (como se isso fosse possível) e dizer amo-te não se ouve, está longe, está longe, não sei onde está, a que distância, em que tempo, está longe, para lá da extremidade mais inóspita do silêncio. É só isso. Existe mas está longe. E a alegria também está longe, sem eco, sem forma. Tudo está longe na hora da tristeza e o abismo aqui tão perto, aqui mesmo.

– Desculpa, disseste alguma coisa?!

Depois começa um novo dia, vem a claridade lenta do céu, lenta, lenta ilumina outra vez a beleza e os horrores do mundo. É sempre assim, já se sabe. A oeste nada de novo. E eu levanto a cabeça para ver um pequeno pássaro que poisou no arame farpado à minha frente, um pássaro tão pequeno e bonito a chilrear

Bom dia, bom dia, bom dia

Eu levanto a cabeça para ver quem sou, levanto-a timidamente antes de morrer, mas ainda a tempo de ver o pássaro que matei quando era miúdo lá nas zonas altas de Santo António. Atirei-lhe uma pedra e acertei em cheio. Não era minha intenção matá-lo, longe de mim tal maldade. Tinha a certeza que ia falhar. Era aselha. Tinha má pontaria, sempre tive má pontaria. Mas acertei-lhe em cheio e o pássaro caiu a prumo da árvore. Era minúsculo, meu Deus! Como eu. Mesmo como eu. Minúsculo. Frágil. Quase nada. Não merecia morrer, não merecia morrer. E eu fui o seu assassino. Um assassino de oito anos.

Agora o dia cresce. Tanta luz. O mar está um espelho. É primavera, é sempre primavera aqui e eu tenho vontade de chorar as culpas, todas as minhas culpas, do pássaro que matei ao coração das pessoas que firo. Tenho vontade de chorar e apagar o mundo que há em mim, todos os lugares por onde andei, o mal que faço e o bem também, apagar a viagem, chorar e pedir perdão, pedir ajuda, dizer:

– Eu pensava que ia falhar porque tenho má pontaria.

Às vezes nem sequer sei por que escrevo, para que serve isto, estas palavras que arrastam a minha vida e o meu pensamento para aqui, para este papel, este computador, assim expostos, eu a dizer amo-te, eu a chorar, eu a dizer tenho medo, tenho medo, mas também eu a dizer que sou um cabrão como outro qualquer, sou egoísta, matei pássaros, digo palavrões, cuspo no chão, puta que pariu, quero lá saber, durmo debaixo da ponte se for preciso, não me importo, quero lá saber das desgraças e da porcaria do mundo, do dinheiro dos outros, das almas e das vaidades e dos cadáveres, para o diabo com isso tudo.

Às vezes – ia eu a dizer – às vezes eu já morri, aquele morrer de continuar vivo. Tudo é biológico. Não há salvação. O amor é silêncio, o silêncio mais longo da vida, mas eu digo amo-te. Mesmo nas vezes em que já morri digo isso. Digo-o sempre. Quero imprimir essa palavra no tempo e no lugar onde estamos, integrar o som que ela tem na sinfonia do afeto, torná-la memória inesquecível do presente e do infinito. Sabes, digo amo-te porque estou vivo e sou o teu poeta. Sou teu, mulher.