Uma bala. Só

Quando uma bala perdida, ou dirigida ceifa uma vida, não mata, apenas mais um ser humano. Mata um pai. Uma mãe. Um filho. Uma mulher. Um homem, matando um pouco do Futuro. E foi uma bala perdida ou não, que matou a Ju. A Ju, uma mulher que dia a dia se levantava quando a noite ainda dormia para fazer do dia o ganha pão. O seu e o da família. O seu e um pouco, também o de todos nós, angolanos, que a cada dia lutamos para que Angola cresça. A Ju, a zungueira, termo que, por cá é sinónimo de quitandeira, vendedora e que tem, origem na palavra “zunga”, do quimbundo e que significa venda ambulante, praticada especialmente por mulheres jovens e nalguns casos bem idosas que, de cesta, de alguidar ou bacia de plástico à cabeça, calcorreiam a cidade. Os bairros. Os musseques. O asfalto. A terra, o pó dos caminhos vendendo fruta, legumes, ou saquinhos de paracuca que mais não é do que amendoim, ginguba, para nós, envolta em açúcar e, nalguns casos peixe ou até bugigangas do mais variado que se pode imaginar.

E a zungueira luta. Cansa-se. Moi o corpo. Cansa as perna e os braços e os ombros sob o peso de um mundo guardado num pedacinho de espaço cheio de um quase nada que é tudo o que lhe dá a força para voltar no dia seguinte. E no outro. E no outro.

E é esse pedacinho de quase nada transportado num alguidar, numa bacia, numa cesta envelhecida que leva, de vez em quando, porque nem sempre o importante é notícia, a notícia para os jornais.

“Um jovem que teve 20 valores no teste de admissão à Faculdade de Engenharia da Universidade Agostinho Neto é filho de uma zungueira.

Um dos melhores estudantes da Faculdade de Economia da mesma Universidade, ajuda a mãe a vender ginguba e banana grelhada nas cercanias da Baixa de Luanda.

O Homem que transformou um corpo de guerrilheiros numa máquina de guerra que permitiu travar em 1988 o exército da África do Sul do apartheid, também é filho de uma zungueira.

Viriato da Cruz, um dos poetas maiores da escrita angolana, figura singular do nacionalismo angolano, dedicou versos à avó Ximinha, zungueira de outros tempos, das estórias que as mulheres vão escrevendo na História de Luanda. «Kuakié!... Makèzú.../O pregão da avó Ximinha/é mesmo como os seus panos/já não tem/a cor berrante/que tinha nos outros anos. /Avó Xima está velhinha/mas de manhã, manhãzinha,/pede licença ao reumático/e num passo nada prático/rasga estradinhas na areia...(…).»

«A quitanda./Muito sol/e a quitandeira à sombra/da mulemba./-Laranja, minha senhora/laranjinha boa!/A luz brinca na cidade/o seu quente jogo/de claros e escuros/e a vida brinca/em corações aflitos/o jogo da cabra-cega» como cantou Agostinho Neto ou como Luandino retratou a mana Rosa Peixeira “Ola almoço, ola amoçoéé/matona calapau/ji ferrera ji ferrerééé”/ – E você/mana Maria quitandeira/vendendo maboque/os seios-maboque gritando/saltando/os pés percorrendo/caminhos vermelhos/de todos os dias?/“maboque m’boquinha boa/dóce dócinha”.

Uma bala. Só uma. Não levou consigo, apenas a mãe Ju. Matou um pedaço de Angola. Do Futuro. Um pedaço de todos nós. Uma bala. Só.