Sobre o resto dos dias todos

Há um livro de Henry Miller (gosto muito de Henry Miller) que logo no início diz qualquer coisa como esta. “Não há mais livros para escrever, graças a Deus. E então isto? Isto não é um livro. Isto é uma injúria, uma calúnia, uma difamação. Isto não é um livro. Não, isto é um insulto prolongado, um escarro na cara da Arte, um pontapé no traseiro de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, do Amor, da Beleza... do que quiserem.”

Roberto Bolaño (também gosto muito de Bolaño) começa assim o seu ‘Amuleto’. “Esta vai ser uma história de terror. Vai ser uma história policial, uma narrativa de crime negra e de terror. Mas não parecerá. Não parecerá porque sou eu que a conto.”

Existe, nas frases que abrem os romances uma tentativa quase sobrenatural de condensar em poucas linhas toda a verdade do universo. De resumir toda a Literatura a um parágrafo primordial. A partícula de Deus da escrita. No jornalismo, com as devidas (e enormes, se quisermos) distâncias, é um pouco assim. Queremos ir atrás da história toda. Agarrá-la com ambas as mãos, limar-lhe as impurezas, reduzindo-a ao simples facto para depois atirá-la nua à cara do mundo. Gosto muito de jornalismo, e gosto muito de primeiras frases.

Do “Chamem-me Ismael” de Melville. Do “Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu-da-boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.”, de Nabokov. Daquele soco no estômago de Camus: “Hoje, a minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem”. Gosto muito de primeiras frases, e como não sabia como começar este texto, começo assim.

Isto não é uma crónica. É um rascunho de um tipo, que sou eu, que está sentado num quarto de hotel sem saber o que fazer com as mãos de tão vazias. Passou o último par de dias a viajar. Foi de A para B. Depois de B para C. Podia ter ido logo de A para C, mas não calhou assim. Matou a espera em cafetarias de aeroportos. Viu gente a partir. Outros a chegar. Gente que nunca mais irá ver, nem que viva 100 anos. Como aquela rapariguinha de óculos cor de mel, que lia Yann Martel em português, e fez-lhe voltar a acreditar no mundo. Ou velho de cabelo desgrenhado que arrastava a mala coxa de uma roda, e parecia estar a fazer da vida, viagem.

Depois chegou. À sombra de um vulcão, escreveu sobre o imenso mar azul. Sobre compromissos e esperanças. Sobre a promessa de um mundo melhor, e agora está ali, naquele quarto de hotel mal-amanhado, com uma janela enorme a desembocar para uma igreja em obras. Há algumas horas que a história do dia, que o trouxe ali, foi escrita e enviada para a redacção. Andará já por aí a perder-se na internet. Na manhã seguinte será papel, depois letra morta ao entardecer do dia. E ele sem saber o que fazer a tanta mão vazia.

Deve ser isto a solidão. Ou então é saudade. Ou amor. Ele que é tantos, há tanto tempo, queria ter escrito isto lá atrás, quando vinha a propósito e o calendário convidava a dizer o quanto gosta dela. Mas são tantas as palavras que têm de serem escritas à hora marcada, sempre tão urgentes, sempre tão apressadas e com ares de importante, que estas (que estão para além do tempo, que não são espuma dos dias) foram ficando guardadas e adiadas para o dia seguinte. E depois para o seguinte desse dia.

Em criança, mesmo numa casa sempre cheia de vozes – a mãe, o pai, as duas irmãs mais velhas, depois a avô a juntar-se – sempre esteve sozinho. Gostava muito de estar sozinho, e sempre soube o que fazer com as mãos, que nunca lhe pareceram vazias. Eram apenas mãos, à espera. Agora sabe de quem.

A última viagem que fizeram juntos, todos, chega-lhe agora como uma memória filmada com uma Super 8. Um miúdo a dormir. Outro deslumbrado a fotografar cada pedaço de caminho. As praias que não acabavam e o frio que corria nelas à boleia do vento. Os cabelos dela, livres. Felizes. Há tanta felicidade e melancolia numa praia deserta no inverno.

Ainda não demos a volta ao Mundo, como juramos um dia, mas o mundo deu-nos a volta. Tantas vezes. Tem sido uma viagem, esta. Os dois. Os quatro. Não a trocava por nada.