A vida é aqui!

A certa altura a vida começou a adquirir o sentido que merecia, ainda hoje penso nisso, no sentido que a vida merece, vou pelo caminho à toa num destes dias cheios de sol e liberto o pensamento na direção do amor, não há outra direção possível antes da morte, as palavras soltam-se e o valor das emoções também, tudo cabe dentro do amor incluindo a maldade. Esta é a gramática, a sintaxe, o léxico do ser.

Escrever enche a vida de luz e reduz tudo a nada.

Escrevi a frase e depois fiquei quase uma hora a olhar para ela. Escrever. Luz. Nada. Como assim? Pelo caminho adormeci, fiz uma viagem de quinze minutos, talvez meia hora, sonhei que tinha ganhado o euromilhões e estava a arrumar maços de notas num quarto enorme, estava muito feliz por isso e voltei tal como tinha partido, a sorrir e de mãos a abanar.

Escrever é uma forma de tirar a máscara e dizer eu sou isto. Nada. Luz. Parece fácil, mas de facto não é. Nenhuma revelação é fácil porque contém sempre todo o peso da solidão. Às vezes é melhor ficar calado, não tocar, não saborear, não ouvir também, não cheirar e sobretudo não olhar – olhar é muito perigoso, muito cheio de equívocos – olhar mata.

Por isso, não sentir é uma boa forma de salvação, já se sabe, mas não vale a pena, não vale mesmo a pena. Acreditem. O melhor é dizer o que se sente.

– É verdade ou ficção?

De vez em quando fazem-me esta pergunta. As pessoas duvidam da veracidade do que digo nas crónicas. Bem, nada disto é ficção. Tudo corresponde a pessoas e a factos reais ou talvez não, quem sabe, pois para mim também é importante criar um certo mistério, ainda que esse mistério resulte em esquivar-se do quotidiano, que é o que muita gente faz para tornar a vida minimamente aliciante, com omissões e palavras vagas, às vezes profundas e confusas, com silêncios inquietantes e breves desaparecimentos, às vezes mesmo com longas ausências, uma viagem à Índia, por exemplo, ou alimentando um caso amoroso com a professora de yoga ou com um colega de trabalho às escondidas, essas coisas assim, que são as aventuras de toda a gente, pois não há ilhas do tesouro para todos e mesmo que as houvesse a maioria das pessoas não quereria viajar para lá, para não ter de enfrentar as tempestades e os piratas e todos os imprevistos e desenganos que há na natureza dos tesouros.

Por isso, tudo o que escrevo é verdade. Além do mais venho de uma longa viagem pelo mundo e só agora a minha vida começou a adquirir sentido por causa do amor, mas não trago na mochila nenhum sinal do além, nenhum objeto misterioso, nada de sabor ancestral, nenhum mapa de encruzilhadas perdidas. Tudo o que transporto são peças de roupa já muito usadas, alguns medicamentos para maleitas de assalto súbito, um caderno para escrever, um livro sem rosto, coisas de higiene pessoal, outros pequenos objetos sem valor e pouco mais.

Um dia hei de enumerar unidade por unidade tudo o que transporto na mochila, para dar a conhecer o peso material, efetivo, da minha vida. E a vida para mim é luz e nada na medida em que se morre de um momento para o outro sem qualquer razão de lógica, reduzindo a zero toda a emoção do bem e do mal que há em nós.

Então, o mais que vale é deixar andar, correr o tempo e os acontecimentos, deixar passar as pessoas nos seus teatros mágicos, nos seus jogos de espelhos e luzes, dançando com ilusões e maldições, dançando consigo no vazio das horas, na sombra do fim. E mais um dia acaba sempre por passar e a “memória por ficar mais vã e inofensiva”.

Uma volta completa das quatro estações rolou outra vez e o meu coração vibra de expectativa hoje como no primeiro dia da minha vida. Que mais posso querer? Sinto-me tão feliz. Suspendo as palavras. Olho para a rua através da janela e isto é tudo para mim: cai a noite e o meu amor está quase a chegar.