Traição

Sobre a mesa de João Miúdo reinava a ausência do que era escusado (e do que podiam escusar). Uma malga de milho cozido e três chicharros (permutados, ao pé da Plaqueira, por meia saca de batatas), era tudo quanto a fortuna do dia trouxera àquela família de nove bocas. Havia quem menos tivesse (o nada pontuava a grande maioria dos lares e a míngua anunciava-se na quietação das chaminés). Lá em cima, os céus mantinham-se insensíveis às litanias “Pro Pluvia Postulanda” – e até os sulcos dos olhos maternos cediam ao desamparo de um pranto sem lágrimas. Havia fome.

De freguesias vizinhas, como anjos caídos, chegavam magotes de crianças com uma cantilena posta na fraqueza dos corpos – “M’nha sinhóra, pel’amor de Deus Nossenhô, têm um punhadinho de milho ou umas semilhinhas? M’nha sinhóra…” Admiravelmente, quem pouco tinha, muito dava – à confiança de um Pai de todos que havia de deparar o sustento do dia seguinte. Ao fechar das sacolas de pano, o repique final: “M’nha sinhóra, pel’amor de Deus Nossenhô, tem uma bochadinha cozida que se coma agora? A gente vem de longe, a gente tem fome!” A cadência melódica e sonora daquele cortejo de esfaimados fazia-se ouvir a grande distância, como o gracitar choroso das cagarras, selando as portas de quem se deixava morrer à fome por vergonha de pedir. Ali, no desespero da impotência, o orgulho era o último reduto a cair perante o ribombar das entranhas e a percepção esdrúxula de uma dignidade cadavérica, cravada nos calos das mãos.

Somavam-se imagens pungentes. A poeira levantava-se ao arrastar descalço do Manelinho Arrais, carregando às costas o corpo amortalhado do seu primogénito. Sem caixão, nem sino. Ele e o vigário, numa procissão absurda de dois resignados e um morto. As gaivotas adejavam no cume da serra, caçando morganhos (ferozmente disputados em rodopelos de vida ou de morte). A míngua era transversal. Junto ao porto, as mulheres esperavam, em vão, a chegada dos barcos. Nem víveres nem gente. O mar fechava-se como túmulo de pedra.

Estavam entregues à sua sorte. Longe da vista de quem decreta abundância, arredados dos sinais de clemência. O isolamento geográfico (sempre conveniente a quem busca pretextos para desculpar o abandono) havia moldado uma ideia de suficiência imperativa, de resistência necessária. À força de uma sabedoria do coração, que forja na partilha do quase nada uma irmandade que suplanta a fraqueza da acção e a impotência do querer, fez-se dos séculos gente.

O feitor entrou sem bater. Abeirou a pança dilatada da mesa onde esfriavam os três chicharros e o milho, arredando do banco, com uma bordoada, o mais pequeno dos filhos do Miúdo. Sentou-se. Em três tragos (sem cerimónia) devorou meia malga e dois dos peixes. Coroou o rol das novas exigências do senhor das terras com a obscenidade de um arroto em lar faminto. António, o menino destronado, abandonava-se à veneração de um belisco de pão seco, guardado zelosamente na dobra da manga da sua camisa. Aos seus pés, o esquelético Tejo esboçava um reticente abano de cauda, com o desalento preso àquele pedacinho de comida. António cedeu, sem hesitação.

Ajeitando a barreta na rubra testa, o feitor metia a unha à boca, cuspindo (em trejeito abreviado) o que ficara entre os dentes amarelados pelo tabaco da cidade. Tejo acudia aos salpicos com a voracidade de quem não reconhece indignidade à vontade de viver.

Havia, nessa intromissão autoritária, maior pecado que o da subtração do alimento (maior, até, que o riso de desdém perante um chiqueiro vazio). Diziam-no os rostos daqueles nove. Dizia-o a lágrima suspensa no queixo de João – havia a traição, a maior de todas: a de uma
esperança.