O varandim

O vento cortante na cara dá as boas vindas. Serão os tais cruzados, que nos fazem festas nas bochechas até ao ponto de desconforto. Enche-se os pulmões de ar, pensando que se consegue inalar a maresia assim ao longe, embora se saiba que não. O varandim que se vislumbra na penumbra da noite está vazio. Visto dali nem parece ter sido o palco de todos os sonhos e esperanças do mundo, como foi outrora. Já não se cruzam olhares de súplica nas despedidas doridas e de alegria nos reencontros que demoram. Votos que corresse tudo bem lá fora, esse conceito vasto e de estranheza, que valia para tudo o que fosse depois das Desertas. E daquele até já que podia valer décadas de troca de cartas que acabariam amareladas pela vida.

Já não se gritam nomes. Só se ouvem os ventos que começam a fazer cócegas até causar desconforto e o cheiro familiar do que já não se reconhece, a maresia que se atrasa. Como os sonhos sonhados do varandim do aeroporto naqueles tempos de espera e ânsia de descobrir mundo para ter saudades de casa. De ouvir histórias que pareciam saídas de filmes ou novelas e sotaques que faziam rir.

Como era bom ouvir o seu nome na volta ou mandar uma carta que tivesse resposta e se deixasse repousar com tempo no fundo de uma gaveta. É um silêncio que dói ou será o vento cortante e aquele patamar suspenso -onde se viam os aviões – deserto de gente, de sonhos e esperanças. É a primeira vez? perguntam-lhe e quase tem vontade de dizer que sim, que é uma estreia este repetido regresso a casa.

Talvez um dia volte ao varandim para ver aviões e sonhar outra vez.