Bens de arte e parabéns

Às vezes penso que o fim do mundo vai ser amanhã, em tudo vejo sinais do apocalipse e depois passo três noites em claro, o mundo obviamente não acaba, mas agora não consigo dormir ou então acordo sobressaltado a meio da noite, foi o que me aconteceu esta semana, acordei sobressaltado, o cão velho aos gritos no quintal com dores e horrores, coitado do bicho, aquilo assustou-me de morte caramba, parecia mesmo o fim do mundo, o cão aos gritos, barulho de Carnaval ao fundo, vozes e gargalhadas, o pai a ressonar alto no quarto ao lado e eu perdido no vazio a tomar consciência do ardor no estômago, pouco a pouco um ardor horrível no estômago, o jantar caiu-me tão mal, raios me partam, e depois era suposto ela telefonar-me, lembro-me disso, ela devia telefonar-me mas não o fez, fico inquieto, profundamente inquieto.

O fim do mundo chegou e eu estou sozinho.

Pelo meio houve um sonho. Sonhei que tinha duas filhas gémeas e elas estavam a brincar à volta de uma casa térrea e eu estava lá num quarto dessa casa a escrever um livro, era uma história brilhante, tinha um título magnífico, era material nobre, cada palavra um fio de luz, como a luz que há nos olhos do meu amor e nos fios do seu cabelo, a luz da vida, e ela estava comigo, ela era o texto, a casa, as meninas. Olhámos para elas a correr na relva, iguais na felicidade, indiferentes ao perigo que há no agir, mas eu vou salvá-las, quando o fim do mundo chegar eu sei que vou salvá-las, e depois aparece o homem tucano a correr, parece bom mas de facto é um demónio, invade o espaço, põe a mão no ombro da minha mulher e diz:

– Vem.

Ela já se levanta para o seguir, mas eu agarro-a pelo braço com força, com determinação, coisa de macho, e digo:

– Tu ficas aqui.

Ela para no sonho, exatamente como fez na realidade a certa altura durante o passeio no fim de semana ao longo de uma levada. Eu ia atrás e também parei. Ficámos suspensos, estáticos.

Ela disse:

– Não se ouve a água.

E eu constatei:

– A água corre em silêncio.

Então ela sugeriu-me que escrevesse alguma coisa sobre isso, sobre água a correr em silêncio na levada, e eu fiquei a pensar na escrita como uma forma de sabedoria que passa rápida e sem ruído no momento e no lugar onde estou, sabedoria que assegura a firmeza do ser e domestica a dor de existir, tudo o que vem do passado e tudo o que vai para o futuro, sabedoria que ajuda a ficar e lida bem com a espera e a solidão, sabedoria plena que conta sempre a verdade e no fim diz sem medo:

– A vida é simples.

E o resto é o mundo, o resto são os outros e as personagens também, a ficção e o logro que há nas palavras, o resto é o estado atual das coisas, o arco concreto da realidade, o resto é o absurdo e o cão a gritar outra vez no quintal, pobre bicho, são quatro da madrugada, está tão doente, tão velho, devia ser abatido, mas o pai não quer ouvir falar disso. Está sempre a dizer:

– Era bom que este estupor morresse!

Mas nunca considera a possibilidade de o abater, quer apenas que ele fique ali até ao fim que lhe está destinado, seja lá como for, com mais ou menos sofrimento para os dois, isso não interessa, cuida dele, dá-lhe remédios, às vezes o bicho até anda bem, desgraçado.

– Um dia há de morrer – diz o pai. – Um dia há de morrer.

Depois acrescenta:

– Só espero que não esteja a chover nesse dia para eu atupi-lo logo.

As horas desdobram-se em mais horas e por fim regresso desta longa viagem à casa onde tu vives comigo e as meninas brincam no jardim e eu escrevo um livro e adormeço assim, meu amor, assim nos teus braços, embalado pelo silêncio da água a correr na levada.