Andar por andar

Um dia, quando eu vivia em África, meti-me por uma vereda no meio de um eucaliptal a subir uma colina e às tantas ouvi um restolhar de folhas do lado direito. Olhei para o chão e vi uma mamba preta, talvez com a espessura de um braço, serpenteando perto dos meus pés. O brilho e o movimento das escamas provocaram-me um arrepio de morte, para sempre inesquecível. Dei um salto para trás, gritei um palavrão, fiquei lívido, lívido. Ao mesmo tempo o bicho desapareceu na folhagem.

Por um instante pensei que morria, pensei mesmo que morria. E depois pensei que se morresse durante a caminhada, assim tão longe nas montanhas da Alta Zambézia, não teria chegado a lado nenhum e fiquei triste por isso, pelo nada que há nas coisas e mais ainda na distância das coisas.

Eu gosto muito de andar a pé, não necessariamente na serra e aos fins de semana, mas por todo o lado e a qualquer hora. Aqui e em qualquer sítio. Andar e andar. Estão a ver? Andar e andar. Tem dias que desço das zonas altas de Santo António ao centro do Funchal e dali vou até à Praia Formosa, às vezes até Câmara de Lobos, sempre a pé para lá e para cá e pelo caminho vou pensando:

– Se é para andar, vai até ao fim do mundo.

Fico alagado em suor, os pés a latejar, o corpo moído, a cabeça meio aérea, e depois chego a casa e sinto que não fui a lado nenhum, não cheguei ao fim de nada, não dei sequer um passo para além de mim. Estou aqui. Estive sempre aqui. É só isto. E isto é a vida.

– Se é para andar, vai até ao fim do mundo.

E lá vou eu.

Para mim, andar não constitui uma atividade desportiva. Nada disso. Não disponho sequer de equipamento específico. Vou como estou, desde que me apeteça ou desde que seja necessário. De botas ou de chinelos, de calções ou de calças, de camisola, camisa ou blazer. Estou sempre pronto.

Uma vez, aqui há uns bons anos, saí bêbado de um bar e fui para casa debaixo de uma chuva gelada e enquanto caminhava ria-me às gargalhadas e estava sempre a dizer:

– Puta que pariu!

Era uma alegria total e aparvalhada, cem por cento ébria, andar por andar, nada mais.

E depois, naturalmente, fiquei doente, com febre alta e dores na garganta, sendo assaltado por uma sensação inquietante, eu diria vagamente louca, de ter andado tanto sem saber para onde me deslocava. O vazio. A cobra. Mas a vida é assim mesmo, não vos parece? É como eu costumo dizer:

– Se é para andar, vai até ao fim do mundo.

​Há dias, por exemplo, meti-me na Levada dos Barreiros e vi muitas lagartixas, um francelho a planar, tabaibeiras à espera do verão, um gato a dormir, um cão a ladrar e eu sempre a caminhar, água a correr, pombas na rocha, cruzo-me com pessoas – os turistas saúdam-me em português e locais falam comigo em inglês – a vista abre-se sobre o mar, vejo casas em ruínas, muros de pedra emparelhada, paredes barrigudas – vão cair, vão cair – poios de bananeiras, fontenários CMF, passarinhos a cantar, depois vem a descida, sempre a descer, sol no musgo, calmaria, na estrada passa uma camioneta para o Covão, e eu sempre a descer, de repente lembro-me da cobra em África, agora estou na Praia Formosa – um dia disseram-me que é o lugar da ilha com maior concentração de minerais ferromagnéticos e isso potencia a nossa ligação à Terra – abanco num restaurante, encantam-me as cores da beira-mar, um copo de vinho tinto e um pires de tremoços, sabem a água da ribeira, como naquele tempo, a caravela surge ao fundo, depois vem o almoço, comida igual à de casa, o sabor de antigamente, o sabor do futuro também.

E eu sozinho na esplanada a tomar notas num caderno:

– Se é para andar, vai até ao fim do mundo.