Malha e porrada

Ainda venho de um tempo em que bater ou exercer violência sobre os mais fracos era uma prática aceite e até, em certos casos, recomendável.

Não era raro uma ‘malha’ fazer parte da pedagogia de ensino das crianças em casa. Era aceite que na escola houvesse lugar a palmadas corretivas e até à existência de réguas e outros instrumentos de tortura institucionalizada. E se nos queixássemos em casa, era bem capaz do professor ou professora merecerem elogios e de nos repetirem a dose, porque os crescidos tinham sempre razão e nunca ninguém tinha morrido de levar uns tabefes.

Pela mesma lógica, e embora não claramente admitido, porque no fundo deviam sentir não ser correto, o marido dar porrada da mulher não era caso para grandes dramas. Eram os tempos da máxima “entre marido e mulher, ninguém mete a colher”.

Felizmente para mim, tive a sorte de ter apanhado um tempo de transição. Os meus pais não eram grandes apologistas da malha, pelo que, na maior parte das vezes, a mesma fazia apenas parte de alguns enunciados ameaçadores e não de uma prática comum e repetida.

Da mesma forma, na minha família não conheci casos de violência doméstica, mas lembro-me de um vizinho ter partido os dentes à mulher e de ouvir as mulheres mais velhas tentarem justificar o ato, com frases como “deve ter tido as suas razões”.

Depois, a verdade é que todas estas práticas passaram a ser antipedagógicas, criminais ou pecado.

No entanto, a verdade é que parece ser sempre mais fácil alterar o discurso do que a prática e chegados ao século XXI os números da violência doméstica assustam e as suas consequências assustam ainda mais.

Está claro que a prática da malha e da porrada ainda colhe, e que a mão criminosa resvala, tantas e tristes vezes, para a morte das vítimas, na sua maioria mulheres e crianças.

Por detrás de tudo isto, está ainda uma visão sexista do mundo, do homem dominante, da mulher dominada, da mulher pertença, da mulher objeto, dos filhos que são uma dádiva do pai e que, por isso, podem ser usados e abusados, subtraídos e até mortos como vingança pela mulher que não obedece ao homem, que não se subjuga, que escolhe, que sai, que se queixa, que pensa, que qualquer coisa que não seja aceitar a obediência a uma suposta superioridade masculina.

E, depois, há ainda elementos de uma suposta Justiça que justificam, perdoam e pensam convictamente numa lógica de uma mentalidade masculina dominante. Juízes que citam a bíblia, que falam do orgulho masculino ferido, e outra justiça que, perante a infâmia, não castiga, apenas faz uma advertência.

Afinal, parece que o tempo da malha e da porrada institucionalizada não passou. E com eles também não passou o silêncio dos inocentes, a surdez de quem os devia ouvir, e a ignorância dos que podem fazer alguma justiça, mesmo que tardia.

Os tempos afinal mudam pouco. E na lentidão morre-se de não avançar e de todos marcarem passo com a mesma desfaçatez com que as mulheres do tempo da minha infância diziam: “deve ter tido as suas razões”. A idade da razão peca por tardia e faz-se mortal e brutal.