Amar em tempos de guerras

Um dia, acabamos todos por chegar ao ponto crucial das nossas vidas. Aquele ponto de viragem em que ou vai ou racha, como comumente se diz por aí. É engraçado pensar no peso que deixamos os nossos ombros suportarem. Nas pressões físicas e psicológicas em que o nosso corpo e a nossa mente se aprisionam. Talvez seja preocupante, mas é, na realidade, um sinal de que a vida segue. E segue tão depressa que nem nos apercebemos disso. Num piscar de olhos chegamos ao ponto de viragem que achávamos estar longínquo. Mas que afinal chegou tão rápido, o que nos faz relembrar que o tempo não escolhe datas específicas, nem tão pouco avisa-nos da sua chegada.

Afinal, em tempos de guerra, esquecemo-nos de amar. A nós mesmos, aos outros e ao mundo em si. Nesta vida que poderia ser tão leve e plena, estamos sempre tão dispostos a querer mais. A querer ter um melhor trabalho. A querer ter uma casa maior. A querer viajar mais e mais e mais. A querer ter o telemóvel de ultima geração. A querer ser mais do que a vizinha ou o vizinho. A querer impingir a nossa opinião em detrimento da do outro. A querer ter o feed mais bonito de todas as redes sociais. A querer dar opiniões sobre os afazeres do presidente da Câmara. A querer travar guerras que não são, de todo, necessárias, porque pura e simplesmente há coisas que não podemos controlar. E, quando podemos, damos por nós a não querer fazer parte de “x” acontecimento porque tal pessoa, ou tal situação, “não me define”. Não será isto contraditório? Às vezes, basta parar para realizar uma reflexão intrínseca para nos apercebemos que muitas das rasteiras que acabamos por cair na vida, são feitas exatamente por nós mesmos.

Vive-se muito a ideia de sabotagem. Uma sabotagem que surge sem que nos apercebamos, afinal ninguém quer ser o culpado por cair no “abismo”. Ninguém quer acreditar que chegou ao ponto de viragem. Em que deixamos de ser crianças para sermos adultos. Em que passamos a ser menos condescendes com a vida e com os outros. Uma sabotagem que ocorre nas coisas pequenas da vida, nos mínimos detalhes das nossas ações. Porque razão queremos travar tantas guerras se depois, na hora do ataque, não vamos à luta? Não tenho uma resposta pronta para esta questão. Nem nenhuma ideia do que pode ocasionar esta ação sem reação. Mas de uma coisa tenho certeza: em tempos de guerra, temos de conseguir ser capazes de conseguir amar tudo aquilo o que está à nossa volta. Se queremos travar guerras com as coisas que nos incomodam, temos de saber como manter a capacidade de amar aquilo que não nos incomoda. Se queremos travar guerras connosco mesmos, por termos chegado ao ponto de viragem das nossas vidas, temos de saber amar-nos até em tempos de dificuldade.

Sabotarmo-nos a nós mesmos é exatamente aquilo que nos faz atingir o patamar do limbo. Não saber o rumo da nossa vida, num mundo em que a sociedade trava constantes guerras com tudo e mais alguma coisa, quase faz querermos entrar em guerra connosco mesmos. Este ponto de viragem só acontece por estamos tão robotizados e estereotipados para construir uma “vida” como se conhece: casar, comprar casa, ter filhos. Vale lembrar que num mundo tão evoluído como hoje as opções são ínfimas. Conseguimos ser pessoas individuais, com desejos e ascensões próprias. Cada um deve saber o que para a sua vida e cada um deve dar o sentido que deseja para ela mesma. Cada um trava as próprias guerras consigo mesmo. O tempo que necessitar. Da forma que desejar. Mas lembremo-nos: quando chegarmos a esse ponto de viragem, não deixemos que a vida nos prenda somente a ela - ou naquilo que as pessoas querem e acham que ela seja. Sejamos mais leves, mais condescendentes com as pressões internas e externas. Sejamos mais amor, menos guerra.