Beijinho grande

Atualmente, é comum enviarmos e recebermos mensagens rematadas com um beijinho como saudação final. Quando o escrevemos, o que temos em mente não é um ósculo pequenino ou breve, tipo toca e foge, nada disso: enviar um beijinho é adicionar um suplemento de ternura à saudação. Podemos optar por um beijo ou beijos (reduzidos a bj e bjs para apressados ou preguiçosos), contudo, nenhum deles soará tão doce como o beijinho que poderá também transmitir compaixão e tristeza. O beijinho é terno, empático e suave. Parece que chega de mansinho, subtil. Vai além da eficácia do beijo, sem atingir a alegria descomprometida e folgazona da beijoca, ou a travessura da junção dois-em-um dos abreijos. Quando endereçamos um beijinho a um amigo que atravessa uma fase menos boa da vida, temos vontade de envolve-lo ainda mais no nosso carinho e então escrevemos um beijinho grande.

O beijinho e o beijinho grande estão reservados aos amigos próximos, para quem guardamos também um abracinho quando queremos confortá-los e abraçá-los, de facto, embora à distância.

Um abraço é uma expressão de cordialidade formal. Está reservado para amigos ou conhecidos a quem, na verdade, nunca abraçamos, quando fisicamente perto. È curioso que o abraço mais distanciador como fórmula de despedida na ausência, em presença física, torna-se muito mais íntimo e os amigos de quem, em mensagens ou telefonemas, nos despedimos com um abraço, quando face a face, jamais os abraçamos. Muito provavelmente cumprimentá-los-emos com um beijo na face que pela brevidade poderá, com toda a propriedade, ser chamado de beijinho, mas que nada tem a ver com o beijinho escrito.

Um beijinho grande é uma expressão curiosa que a estrangeiros poderia causar estranheza, pelo conflito aparente entre a forma diminutiva do substantivo e o significado aumentativo do adjetivo que a caracteriza. Pois, para qualquer falante da língua lusa, é perfeitamente percetível e todos saberemos ler o doce calor de um beijinho grande. Não deixa de ser contudo uma peculiaridade linguística. Vai daí, pus-me a pensar em outras circunstâncias em que recorremos a diminutivos sem qualquer intenção de apoucar ou referir a pequenez daquilo a que nos referimos. Aqui ficam alguns exemplos, de que me lembrei, bem eficazes na comunicação.

Por exemplo, se encontramos um amigo que na sequência de um tombo de bicicleta ganhou alguns arranhões e equimoses é possível que exclamemos: – Estás lindinho, estás! – Ele não terá dúvidas de que o achamos em estado deplorável. Na mesma linha de ironia, diremos: – Ontem estavas bonzinho – para alguém que no dia anterior se entusiasmara na festa e dela saíra vacilante. Ou então: – Domingo passado comi uma feijoadinha! – Claro que, nesta circunstância, tal com nas anteriores, a entoação dada à expressão terá a sua importância. Porém, mesmo que a frase chegue ao interlocutor por escrito, este não terá dúvidas na sua interpretação e ficará a salivar, não por visualizar uma feijoada miniatura, a menos que seja apreciador de provas gourmet, mas sim uma farta pratada de feijão com bons nacos de carne e saberá, sem hesitação, que a frase significa que a feijoada era saborosa e não uma magra e insípida “feijoadinha”.

Também recorremos a diminutivos para sublinhar uma ameaça: – Vê lá se te pões quietinho! – ou para tornar uma ideia mais veemente: – Se pensas que me convences, estás (muito) enganadinho!

E, porque as palavras são como as cerejas, num ápice, passámos do doce beijinho à ameaça e já outros diminutivos de que gostamos me vão surgindo. Contudo, imagino que estão todos mortinhos para que acabe e termino.

Então, adeusinho! Beijinho grande ou um respeitoso abraço, conforme o grau de formalidade o exija, para os meus simpáticos leitores.