Os livros vendem-se nas Livrarias e Ponto Final

Para começar, umas quantas perguntas. Melhor ainda, perguntas com respostas ou, quem sabe, sem resposta. Onde se compram os livros? Nas livrarias. O pão nas padarias. Os medicamentos nas farmácias. As ruas para os carros. Os passeios para os piões.

Pois é, como sói dizer-se, “cada macaco no seu galho, cada canguru na sua bolsa”.

Acontece, porém que hoje, algumas coisas andam fora dos galhos e até das árvores respectivas.

Vem este arrazoado a propósito de livros e, não por acaso, comecei, lá em cima, a referir as livrarias. Hoje vendem-se livros em qualquer lado. Nos supermercados, nos mini mercados, nos centros comerciais e, para não variar, aqui em Luanda até nas ruas, desviados vá la saber-se de onde e por quem.

Antigamente, e não vou dizer que foi nos velhos tempos, que não são assim tão envelhecidos, comprar livros era mesmo nas livrarias que, não por acaso, eram, também, papelarias. E, naquele tempo quando íamos a uma livraria havia, por norma, um senhor, mais raramente uma senhora, mas também as havia, a que chamávamos livreiros. E um livreiro era uma pessoa especial. Sabia muita coisa sobre livros. Sobre autores. Sobre poesia, prosa e até conheciam alguns desses escritores.

Hoje, como os livros se vendem em toda, ou em quase toda a parte menos nas livrarias, já quase não há livreiros.

Aqui em Luanda, e quando digo Luanda refiro quase Angola toda, as livrarias, a maior parte das livrarias, fechou. A velha Lello, a Mensagem reduziu-se e e é só uma sala a lembrar outros tempos áureos, a Minerva. Restam, felizmente umas quantas, poucas, pequeninas.

No Funchal, para onde envio estas letras semanais, ainda as há. Bastantes. Felizmente. Esperança, uma referência da Madeira, 7ª Dimensão, onde a BD é rainha as Paulinas, a Condessa, de muitas gerações de leitores.

Mas então, estarão a dizer os que leem estas linhas, afinal há, ou não há livrarias. Há. Há sim senhores. Ainda há. Por enquanto!

Mas também há os supermercados com prateleiras, escaparates, mostruários ou serão, antes “monstruários” de livros, vendidos quase a metro. Ali há de tudo, às vezes meio misturado. Saramago ao lado de António Torrado ou de Sophia de Mello Bryner, Pepetela ou David Mourão-Ferreira ombro-a-ombro com livros de mecânica, bricabraque, faça em casa, de ajudas de todos os tipos, “Pense e enriqueça”, “Como fazer amigos”, ou “O Maior vendedor do mundo”. Mas não é tudo. Para além de misturados, estão no lugar errado porque o lugar dos livros é nas livrarias. Ninguém num supermercado, num centro-comercial é capaz de nos falar de um livro. Dar uma referência. Ninguém conhece um autor. Um poeta, um prosador. Ninguém sabe aconselhar um livro, um autor. Vendem-se livros como quem vende farinha ao quilo, ou quites de copos ou panelas.

Ah! como tenho saudades do Armindo ou do Ricardo Manuel da Lello do Lubango e de Luanda, respectivamente. Do Avelino da Gráfica da Huila. Da Miruí, muito mais do que uma livraria para crianças, um ponto de encontro, de Cultura, de convívio. Um pátio de recreio diferente.

O pão vende-se nas padarias. Os medicamentos nas farmácias. Os livros nas livrarias. E ponto final.