Se continuas assim vais perder tudo!

Eu era ainda a construção do nada e estava cheio de filosofia, o melhor artifício para sermos muito, quase tudo. Às vezes dizia-lhe assim: Mãe, tudo o que faço contém a primeira vez e o adeus, a vida começa e acaba a cada passo que dou, é sempre nova no passo a seguir, é outra do pensamento ao ato que me faz existir, ter este corpo, ser esta alma, este caminhar até morrer, vou morrer, vou morrer…

As coisas que eu dizia, meu Deus!

E a minha mãe ouvia-me ao princípio distraída, a dizer:

– Rapaz tu andas a ler muito!

Mas depois começava a ficar preocupada, a dizer:

– Meu filho não penses tanto!

Por fim, sentia-se esmagada, quase nada, cruzava um braço no peito, apoiava o cotovelo nas costas dessa mão e na palma da outra amparava o rosto, a tristeza também, e dizia:

– Se continuas assim vais perder tudo!

Lembro-me como se fosse hoje – água limpa, céu azul – eu no fim da adolescência à conversa com a minha mãe antes de ir para a escola, entre a cozinha e o quarto de engomar, o quintal e a porta do caminho – o mundo que havia antes do mundo – ela ficava a falar comigo até a camioneta aparecer debaixo do incenseiro na Rampa, depois eu corria para a paragem, acenava-lhe através da janela quando o carro fazia a curva em cima da ribeira rumo ao infinito.

– Adeus mãe, adeus…

Ela sorria atrás da porta de ferro e daí regressava às lides de casa, ao jardim raso de flores, aos bordados e aos pensamentos da tarde – o mundo para além do mundo – sempre angustiada, inquieta, tanta apreensão por minha causa, o seu filho tão querido.

Sim, ainda a oiço dizer:

– Se continuas assim vais perder tudo!

Morreu nova. Tão nova. Estava na casa dos cinquenta e eu apenas na casa dos vinte. Cedo de mais para os dois. Por isso, não foi possível pesar na balança do nosso amor incondicional as perdas e os ganhos da vida que sobrou para mim. A minha vida. Mas eu sei muito bem quem sou e até onde fui. Digo-vos: Dei a volta ao planeta e voltei sem um tostão, vi coisas de cortar a respiração em beleza e horror, caminhei sozinho e muitas vezes em boa companhia também, no bosque escolhi quase sempre o trilho menos usado e isso fez toda a diferença, como diz o poeta, parei, olhei em redor, tantas vezes chorei, tantas vezes penei, tantas vezes pensei na minha mãe, eu a chegar a casa para almoçar, ela perdida num caos de pratos e panelas, a dizer:

– Temperei o bife com aguardente, confundi com o vinho branco.

A dizer:

– Aqui há dias foi bem pior, pus um saco com os sapatos do teu pai no congelador pensando que era o frango e pus o frango debaixo do guarda-fato como se fosse os sapatos, mas acho que o bife ficou bom, prova lá e vê se gostas.

E eu em toada existencialista:

– Não está grande coisa, mãe, mas come-se, é como a vida, tem receita certa, mas a gente nunca acerta, estamos sempre a falhar.

Ela concordava e dizia:

– O importante é não passar fome.

Depois, em refrão, aplicava a advertência do costume:

– Se continuas assim vais perder tudo!

Agora queria tanto dizer-lhe que não perdi nada, queria tanto que ela me ouvisse dizer que não perdi nada, não perdi nada mãe, já fiz cinquenta anos e estou apaixonado, todos os lugares estão cheios de luz e o mundo continua a existir inteiro para mim e para o meu amor, ao seu lado tudo faz sentido, tudo é uma certeza de felicidade, tudo contém uma promessa de mais luz amanhã. Ouves-me? Não perdi nada. Só ganhei. Estou vivo, mãe!