A alegria das pequenas coisas

Nos últimos 10 dias tenho vivido de pequenas coisas. Pequenos nadas em si mesmo, coisinhas miúdas que pelas circunstâncias à volta ganharam mais valor.

Partilhar em sereno silêncio longos momentos de espera. Esperar que passe a chuva, esperar que o vento acalme, que a fila ande, que cheguem notícias.

As fotos de família revistas pela milésima vez, as mesmas carinhas, as mesmas expressões, os olhares, as pernas fininhas. Recontar as histórias que todos já sabem de cor e saber explicar qual a razão de ser do nosso nome.

Gestos contidos, leves toques no ombro, festinhas na mão, simples e breves segundos de contacto humano, plenos de significado.

A chegada, finalmente, de um sorriso que tentou por tudo não aparecer, que se escondeu como algo proibido, que chegou atrasado. Mas que felizmente chegou e ficou registado numa selfie.

Tomar um bom banho e ter quem nos empreste os chinelos que esquecemos de trazer. Lavar a loiça todos os dias, fazer disso ponto assente e terapia (acho que é mindfullness que se diz agora).

Vizinhos que deixam flores no tapete da entrada de casa e ser confundida na rua com uma prima. Aprender a dizer ‘pequeno-almoço’, ‘como posso ajudar?’ e ‘cuida de ti’ numa língua nova.

O cheiro constante de creme para as mãos e os presentes trocados só porque sim. A cozinha com cheiro de café acabado de fazer e o silêncio da casa madrugada adentro. Dormir sem sobressaltos e acordar confiante.

Uma máquina que depois de muito tempo, pára de apitar. Entender os vários números, as várias cores, os risquinhos no ecrã e ficar contente ao olhar para eles. Cantar ‘Alecrim aos molhos’ baixinho, ao lado da cama do hospital.

Receber uma boa notícia e ter com quem comemorá-la logo ali, na mesma hora, com a mesma emoção. Um médico que dá sorte quando o vemos. E por estarmos sempre a vê-lo, achamos que temos sempre sorte.

Os cães que entram em todo o lado, no supermercado, no restaurante e até dentro de uma agência bancária.

Ajudar a alimentar os passarinhos e contar num só dia cinco corvos, três gaivotas, dois melros e imensos pardais.

Estão a terminar estes meus dias cheios de coisinhas miúdas sem importância, cheios da alegria das pequenas coisas. Ainda bem que registei tudo.