A minha retrospectiva de vida

Esta não é uma carta dirigida a ninguém. Não é uma carta aberta. Nem uma carta privada. É um desabafo sobre a forma como o tempo passa. Tão depressa que nem damos conta da sua rapidez; nem nos lembramos que hoje estamos aqui, mas amanhã podemos não estar. Tão depressa que nos esquecemos de valorizar as pequenas coisas, mas relevamos as mais insignificantes questões. Tão depressa que não nos apercebemos que o rancor que guardamos das pessoas corrói-nos no interior, mas percebemos quando alguém está ali a falar algo sobre a nossa aparência que talvez não seja tão simpático. Tão depressa que não vemos quem está sempre do nosso lado, mas sentimos falta daquela pessoa que nunca está presente. Tão depressa que deixamos de sentir, ouvir, cheirar e tocar nas coisas, nas pessoas, nos animais, mas não deixamos as redes sociais offline. Tão depressa que não vemos o nascer ou o pôr do sol, não sentimos o vento a esbarrar contra o nosso rosto, não admiramos a natureza que faz a chuva cair graciosa no chão, que faz as nossas árvores e flores florescerem. Tão depressa que 365 dias do ano não chegam para nos sentirmos completos, mas que deveriam ser suficientes para que pudéssemos ser felizes.

São chegadas e partidas. Reencontros e despedidas. Sorrisos e lágrimas. Alegria e tristeza. Sol e lua. São antónimos tão sinónimos, na medida em que existem como ciclos na vida de cada um de nós. Parte da nossa vida – essenciais para que possamos viver uma passagem na terra cheia de vivências, experiências e sentimentos. Em tempos de retrospectivas, devemos pôr na balança as vezes em que nos lembramos de viver intensamente – sem pressões externas de trabalhos pendentes, sem stresses por amizades e amores disfuncionais. Quantas vezes fomos felizes sem medida neste ano que passou? Quantas vezes agradecemos por termos saúde? Quantas vezes olhamos à nossa volta para poder apreciar a sorte que temos? Quantas vezes valorizamos a comida que temos no prato? Quantas vezes apreciamos a companhia dos nossos amigos? Quantas vezes expressamos amor ao próximo? Quantas vezes nos apaixonamos? Quantas vezes choramos? Quantas vezes fizemos alguma coisa pela primeira vez? Quantas e quantas vezes saímos da nossa zona de conforto?

Num universo onde o tempo não pode ser controlado, onde se vive em orbita constante, onde os astros e as estrelas se alinham a nosso favor, não devemos planear uma vida cheia de sentimentos? Que se abram portas a uma nova oportunidade de vida, que possamos ser melhores pessoas, melhores versões de nós mesmos. Que possamos ajudar o próximo sem olhar a quê. Que possamos dar valor ao imaterial, mas conquistar aquilo que nos faz felizes. Que possamos entender que a vida não volta atrás e – clichés à parte – o agora é o presente. Que possamos todos ter saúde. Que possamos todos ter condições para viver. Que possamos ser mais e melhor, todos os dias da nossa vida. Que possamos aproveitar o pouco tempo que o tempo nos dá. E que nesse pouco espaço de tempo que possamos todos encontrar a eternidade feliz que procuramos a vida inteira.

2019, já venho tarde, mas é sempre tempo. Bem-vindo.