Calendário para 2019

1 Janeiro. Depois de noite animada, o dia nasceu e a rotina impõe-se. Nada de desesperos: a animação segue já, nem precisamos sair do ritmo. O ano entrou com saracoteios de samba, em antecipação do Carnaval (8 Março), que virá com malassadas e sonhos lambuzados de mel de cana, lantejoulas, plumas e trapalhões. Calma, não me esqueci do amor! Sim, antes virá o São Valentim (14 Fev.), que em breve se anunciará nas montras, com peças de lingerie em predominâncias de preto e vermelho. As televisões publicitarão bombons, perfumes, jantares à luz da vela e flores – dizem que isso é romântico. Mesmo colado ao Entrudo, virá o Dia da Mulher (8 de Março). A data não deveria ser brincadeira, mas é. Algumas mulheres aproveitam para se divertir em convívios dos quais os homens são excluídos e, com frequência, fazendo as tolices que a eles criticaram como, por exemplo, beber em excesso ou assistir a espetáculos de dança e striptease de machos musculados. Em paralelo, também surgirão as estatísticas de mulheres exploradas, maltratadas, escravizadas, violadas e assassinadas, muitas delas às mãos dos seus amados companheiros.

Março tem ainda o Dia do Pai (19). Os ecrãs exibirão berbequins, lixadoras e aperta parafusos, como sugestão de presente, mesmo para os pais que não mexam uma palha na bricolagem doméstica.

Em Abril chega a Páscoa e faremos morrer na cruz o Menino que ainda agora fizemos nascer. Crentes e outros babarão satisfação sádica perante as reconstituições do martírio de Cristo, nas igrejas, nas localidades e nas versões Hollywoodescas que me farão desligar a TV. Do lado pagão das festividades: chocolates, torrões, amêndoas, coelhos e ovos estarão na ordem do dia. Ah, e o cabrito, os folares e outras iguarias, de cá e de lá, porque tudo agora é global. No dia 25, assinala-se o fim da ditadura, com prolongamento pelo 1º de Maio, Dia do Trabalhador, que antes de o ser, já era feriado na ilha. Há que escolher entre poemas, músicas de intervenção e filmes de época, ou saltar a laje1 e fazer um piquenique na serra.

Maio traz de volta anúncios a perfumes e as floristas incrementam a oferta porque o 1º domingo (5) é Dia da Mãe. Não desesperem os filhos, porque logo chega o Dia da Criança (1 de Junho), com diversão garantida para os mais novos, secundarizando-se a razão de ser do assinalar da data. Debates televisivos aplacarão as consciências e o mundo continuará com crianças vítimas de tudo, algumas aqui por perto. Em Junho, os negócios mudam de direção: chegam os arraiais dos Santos Populares; abre oficialmente a época balnear, a época de incêndios e, já agora, só para aborrecer, a época de exames.

Olhando o calendário, diríamos que Julho, Agosto e Setembro são meses tranquilos, parcos em feriados e celebrações assinalados. Contudo, todos sabemos como o verão se transformou numa sequência de festivais, arraiais, semanas e feiras de quase tudo.

Em outubro, celebra-se a República, em que já nos habituámos a viver, convictos de que reis só nos livros de história. E por falar em livros, por essa altura, já terá começado a chatice da escola e do trabalho e as depressões e as queixas de despesas com materiais escolares, sapatilhas, cadernos e mochilas, assuntos que se esquecerão com a chegada das bruxas, abóboras, doçuras, travessuras e Pão-por Deus.

Novembro corre e o Natal já anda no ar. Os comerciantes movimentam-se para alcançar o seu público-alvo. De repente, todos se lembram que há crianças na terra e enchem-na de brinquedos. As televisões dedicam-lhes programação especial, como se no resto do ano a pequenada não olhasse para as suas emissões. Restauração (1 Dez.) e Imaculada Conceição (8), tempo para preparativos da Festa que, teoricamente, culminará a 25, quando, na verdade, ajuizar pelas montras das lojas, já só se pensa no 31. É forçoso entrar o Ano Novo em grande estilo e felicidade, como se isso garantisse a plenitude para os outros 364 dias. Veludos, cetins e lamés alimentam fantasias de abastança e glamour. De novo surge a lingerie preta e vermelha, em cenários de champanhe e morangos como símbolos de indizíveis prazeres eróticos para, condignamente, receber 2020.

1 Saltar a laje – expressão usada pelos madeirenses como alusão jocosa a alguma infidelidade que pudesse ocorrer durante o 1º de Maio, dia em que tradicionalmente todos saíam para convívios em piqueniques nas serras ou em jardins abertos ao público.