Tal pai, tal filho

Esta semana acompanhei o meu pai ao hospital para uma consulta por causa da doença dele, que é séria, grave, embora comum na sua idade. Normalmente quem vai é a minha irmã, mas desta vez eu é que fui. O pai conhece os caminhos, tem autonomia de movimento e pensamento, tem lucidez e discernimento, podia ir sozinho, sem problema, mas acontece que já não ouve em condições e precisa de ajuda nesse aspeto.

Ele diz que as pessoas falam como bisalhos – piu-piu, piu-piu, piu-piu – e não dá conta da chamada – Eduardo Gabriel Caires – pelo que, diz ele, devia haver um altifalante na sala de espera, uma coisa que falasse alto o nome das pessoas, porque são todos doentes, velhos, atarantados. Depois, não apanha nada do que lhe comunica a médica e, por isso, um de nós tem de estar presente. Além disso, a companhia é sempre importante.

Esperámos mais de duas horas e a certa altura deparámo-nos com uma senhora, sentada numa cadeira de rodas, também ela à espera de consulta, que estava constantemente a dizer:

– Ai meu Deus.

Tinha puxado as calças até aos joelhos e ali virava e revirava a bainha, de forma minuciosa e obsessiva, sem nunca erguer os olhos, sempre a dizer:

– Ai meu Deus, Ai meu Deus, Ai meu Deus…

Parecia uma máquina avariada, um disco riscado girando ao contrário no fundo do ser, a música da vida ecoando no vazio da eternidade, uma canção de demência entre nós, a voz da Humanidade, o eco da existência:

– Ai meu Deus, Ai meu Deus, Ai meu Deus…

E, contudo, não havia qualquer tragédia no tom da senhora, apenas na repetição sincronizada do dizer Ai meu Deus e também no permanente virar e revirar da bainha das calças – vira, revira, vira, revira – ali, sim, havia uma imensa tragédia e eu fiquei a pensar nas coisas do quotidiano, todos os dias a mesma coisa, sempre a mesma coisa, e lembrei-me quando há tempos a minha namorada me disse assim:

– São as pequenas coisas que desgastam o amor.

O que tinha acontecido fora uma simples e ridícula chatice no supermercado, motivada por um produto qualquer, cogumelos ou tomates desidratados, compra-se, não se compra, compra-se sim, compra-se não, o cansaço e a saturação à mistura, pronto, já está, um amuo do pé para a mão, má cara, silêncio e a vida a passar.

De novo uma noite em claro e eu a matutar naquela história da fé – Dizei uma só palavra e serei salvo. Gosto muito desta história, é tão bonita, é a vida inteira suspensa numa única palavra. Qual será?

Mas o contrário também é verdade, pensava eu, uma só palavra basta para me conduzir ao inferno e deixar-me lá prostrado, a arder para sempre. Nem mais. Eu não sou digno, Senhor, contudo dizei uma só palavra e serei salvo, uma apenas, sem repetição.

Regressámos a casa, eu e o meu pai. Eu fui almoçar fora, porque estava angustiado. Ele foi para a cozinha preparar a sua refeição. Depois – não estava lá, mas sei que foi assim – sentou-se no alpendre e ficou um bocado a descansar, enquanto ia matando moscas com uma raquete de plástico. Falou com os cachorros, ora tecendo-lhes elogios, ora insultando-os. Mais tarde, saiu de casa e foi dar um passeio a pé nos arredores. Parou num bar, conversou com uns amigos, bebeu dois ou três copos de vinho seco. Voltou para casa e pôs-se a ver televisão. Adormeceu a meio do telejornal. Às 22 horas comeu um iogurte, tomou os comprimidos e foi para o quarto dormir.

No dia anterior, ele tinha feito exatamente o mesmo e no dia a seguir tornou a fazer igual. É sempre a mesma coisa, não há volta a dar. De resto, eu sou como ele, tal e qual. Todos os dias repito a existência e aborreço-me tanto e tanto, mas também acredito que esta mecânica de desgaste diário contém, oculta na sua engrenagem, toda a magia da vida e do amor. Então, olho para o céu e suspiro como toda a gente:

– Ai meu Deus.