Pura imaginação

Em alturas de balanços e resoluções, o meu maior propósito para 2019 é morar mais vezes no mundo da minha imaginação. Pedindo licença ao caro leitor, a primeira crónica deste novo ano não será uma crónica, mas um exercício de ficção que decidi partilhar.

Como o casamento anda na moda, chama-se ‘O pior casamento do mundo’ e espero que goste.

Estou prestes a fazer 31 anos e com esta idade avançada é natural que tenha amigos de longa data. Infelizmente eles são todos chatos e desinteressantes. Não tive a sorte de ter um amigo sequer que considere à altura da minha personalidade adorável. E no tempo de vida que me resta, já não acredito que possam sofrer uma metamorfose e deixem de ser chatos e desinteressantes. Desconfio que, mesmo que consiga conhecer pessoas novas, o mais certo é serem também elas chatas e desinteressantes, por isso nem vale a pena o esforço. Resta-me continuar a ser uma lufada de ar fresco e de genialidade na vida dos privilegiados que podem privar da minha companhia.

Há uns meses atrás, estivemos todos juntos no casamento do Lopes. Foi o pior casamento do mundo. E podem acreditar em mim, porque sou bastante moderado nas minhas afirmações.

A escolha de se casar no interior de Portugal, às 12h de um dia 15 de agosto, foi logo à partida má. À volta da igreja não havia uma única sombra que nos pudesse proteger do sol e dos 40 graus que o termómetro marcava. Foi muitíssimo pedagógico fazer-nos provar uma pequena amostra do inferno antes de irmos todos ouvir as ‘Palavras da Salvação’. A Anabela, noiva do Lopes, atrasou-se e só chegou às 13h, encontrando um cenário de maquiagens derretidas de fazer inveja ao Joker, cabelos lambidos e rapazes com tantas manchas de suor nos fatos como as pintas de um leopardo. Como a Anabela, durante muitos anos, fez parte do coro da igreja, os membros atuais do coro resolveram fazer ‘algo especial’ na sua cerimónia de casamento. E de facto, foi especialmente chato e desinteressante que a cada 2 minutos cantassem uma canção que durava 5. Isso fez com que a missa, que foi menos pesada que a Instrução dos Comandos, só terminasse às 15h.

Seguimos em caravana para o local do copo de água. Houve muito mais buzinadelas do que é habitual, numa sinfonia coletiva de alívio por estarmos a ir a caminho das bebidas alcoólicas. Disse aos meus amigos chatos e desinteressantes que devíamos aproveitar para ir embora. Eles responderam-me que não, que “agora tudo vai correr bem”.

O Parque de Estacionamento era em terra batida e à medida que os carros iam entrando e estacionando, começou a levantar-se uma grande nuvem de poeira. Eu juro que vi passar um daqueles tufos de feno e que ouvi cavalos a relinchar, mas fui o único. Quando achávamos que íamos entrar na Quinta, dois funcionários pediram-nos para esperar pelos noivos, ali mesmo no Parque, e que eles teriam que ser os primeiros a entrar. Quando o Lopes e a Anabela finalmente chegaram, repararam que os seus convidados tinham todos a cara da mesma cor: ‘dourado de poeira que acabou de assentar em pele molhada’. Voltei a pedir aos meus amigos chatos e desinteressantes para irmos embora e eles reciclaram a resposta anterior: “agora é que isto vai correr bem”.

Entramos no jardim da Quinta, que era muito bonito e cheio de árvores frutíferas. Foi mais uma atividade pedagógica para aqueles que nunca se aventuraram no deserto e até então desconheciam a sensação de ver um oásis. Como tinha estado muito calor nos dias anteriores, os responsáveis da Quinta acharam que era uma boa ideia regar o jardim de forma mais abundante. No decorrer da prova ‘100 metros até às sombras’, os nossos sapatos iam ficando enterrados na relva ensopada e depois pisavam as frutas maduras que estavam caídas à volta da árvore. Tivemos que pedir mais guardanapos porque não chegaram para limpar todos os sapatos. Lembro-me da gargalhada que dei quando vi a minha amiga Joana a chorar enquanto olhava para as suas sandálias prateadas de onde saiam uns dedinhos castanhos. Por ter chegado ao limite do sacrifício que uma amizade permite, sugeri mais uma vez irmos embora. Negaram o meu pedido com o argumento de que daqui a pouco iríamos para a tenda da festa e que era impossível que o casamento não começasse a correr bem. Achei o argumento no mínimo questionável, mas tinha sede e a fisiologia impôs-se à razão.

Entrámos na tenda, sentámo-nos, olhamos uns para os outros e estávamos com um ar de quem correu uma maratona. Com um golden retriever adulto às costas. Mas totalmente adequados para aparecer nas fotografias do pior casamento do mundo. O Lopes veio ter connosco, perguntou se estava tudo bem e pediu desculpas porque o ar-condicionado não estava a funcionar. Era mais uma atividade pedagógica que se passava na tenda-estufa onde decorria a festa: sentir as dores de crescimento de uma alface.

Quando eu estava prestes a dizer ao Lopes o quão longe de ‘bem’ a coisa estava a correr, senti um pontapé na canela e dei um grito. Perdi por instantes a minha linha de raciocínio e a oportunidade de responder ao Lopes, que foi chamado pela mesa ao lado.

Levantei-me decidido e anunciei que era hora de irmos embora. Responderam-me que não e que eu estava a ser chato. “Chato? Eu? Que tenho uma personalidade adorável? Que sou uma lufada de ar fresco e de genialidade na vossa vida? Que aguentei situações extremas e indignas em nome da amizade?” Foi com este discurso que me afastei daquele bando de ingratos, chatos e desinteressantes, e saí da Quinta.

Fiquei na estrada principal um bom bocado a esticar o dedo polegar aos carros que passavam. Até que um Fiat Panda cor-de-rosa parou e eu a vi pela primeira vez.

A Nadia Comaneci é a pessoa mais interessante que conheci na vida e não é nem um pouco chata. Os pais são muito tagarelas e péssimos a escolher nomes, mas a filha felizmente não herdou nenhuma dessas características. Ela é bibliotecária e nas horas livres faz reproduções de monumentos famosos em crochet.

Estamos juntos há três anos e saiu-lhe a sorte grande em me ter conhecido. Por estes dias, andamos muito ocupados com os preparativos para o melhor casamento do mundo. Ainda não decidi se vou convidar os meus amigos.