Uma pessoa nunca sabe para o que está na vida

Os bombeiros – dizia o jornal – apareceram em casa da vítima três quartos de hora depois de terem sido chamados. Eram dois. Um alto e magrinho, de traços simples e puros, novo como a imortalidade. Outro mais velho, com mais de cinquenta anos, baixo e atarracado, vermelho e encardido, de bochechas assopradas como se estivesse sempre a tocar corneta. Ambos tinham o cabelo preto, cortado rente ao crânio. Mantinham-se lado a lado, defronte da porta, embora o mais alto estivesse ligeiramente atrás, sinal inequívoco de que quem mandava era o pequenino.

A porta abriu-se de repente e apareceu uma mulher de meter medo, uma velha toda desgrenhada e arregalada. Os bombeiros mantiveram-se firmes, mas sentiram ter dado um passo atrás em espírito e quase caíram no abismo do horror.

O mais pequeno dominou a perplexidade e disse:

– Onde está a vítima?

A mulher fez sinal para que entrassem.

O interior da casa era feito de silêncio e penumbra. Cheirava a mofo e a coisas antigas, coisas que estão no mesmo lugar há muito tempo e raramente são mexidas, coisas de veneno e loucura, de domínio e maldade.

Os bombeiros seguiram a mulher pelo corredor. Iam com a testa muito franzida, intrigadíssimos. Chegaram à porta da sala e foi então que a mulher lhes sorriu, mas foi um sorriso desvairado, sem esperança e, ainda por cima, pôs-lhe a nu dois dentes caninos invulgarmente proeminentes e pontiagudos. Uma figura horrível.

A velha deu um passo para o lado e apontou para o centro da sala.

Os bombeiros espreitaram e viram uma rapariga nua em cima de uma mesa redonda com pé de galo. Calcularam que devia ter vinte anos, talvez nem tanto, talvez tivesse apenas dezoito, ou dezassete. Estava com os braços descaídos, a cabeça tombada para o lado esquerdo, os olhos revirados, espuma a escorrer pela boca. O corpo estava cheio de arranhões e pequenas feridas, todo ensanguentado. O cabelo era negro, comprido e sedoso como o de uma princesa indiana, mas estava desalinhado ao jeito das bruxas. Havia cacos de vidro e loiça espalhados pelo chão e muita desordem na sala.

– Está assim há mais de uma hora – disse a velha.

– Assim quieta? – Pergun-
tou o bombeiro.

– Não – disse a velha. – Primeiro, pôs-se aos gritos e falou com voz grossa como um homem e começou a partir tudo o que havia na sala e a rasgar a roupa. Depois, subiu para a mesa e começou a andar à roda sem parar, como um pião, senhor bombeiro, como um pião sem parar, e também começou a gemer e a cuspir espuma e a praguejar.

A velha suspirou e concluiu:

– De repente, parou e ficou assim como estão a ver.

O bombeiro magrinho estava de boca aberta e muito inclinado para frente, em estado de terror e deslumbramento perante a nudez, o sangue e a beleza da rapariga. O outro, porém, continuava com a testa enrugada e começou a pensar que uma pessoa nunca sabe para o que está na vida.

Depois, entraram em ação. Pediram uma toalha à velha, tiraram a rapariga de cima da mesa com cuidado e delicadeza e ela não ofereceu resistência, limparam-lhe as feridas, fizeram também algumas perguntas sem interesse e ela respondeu abanando a cabeça que sim e que não, conforme o caso, parecendo a certa altura uma pessoa normal a quem tinha dado uma coisa má, o pode muito acontecer a qualquer um, pois ninguém sabe mesmo para o que está na vida.

Por fim – dizia o jornal – os bombeiros meteram a rapariga na ambulância e levaram-na para o hospital.