Prelúdio em Dó Maior

Naquela medida, a noite era absoluta. Chegava com a sofreguidão de um gato eslazeirado à porta de casa (mal refeita da dilatação rectilínea das últimas luzes do dia). Estendia-se, como mortalha pesada, sobre meia dúzia de tristezas entorpecidas. Um candeeiro de latão servia de luzeiro à minúcia de bastidos e caseados, benzendo a linha ocre com o engano de um qualquer ouro divino (talvez o mesmo que os anjos vestem). A matriarca arredava os pensamentos sombrios (que vinham como procelas) cantarolando melodias da quadra. Nos versos atabalhoados pela boca sujeita a silêncios, a promessa da Festa, para exaltação da pequenada: “A barquinha vem à barra…”

“Deite aí mais uma, ponha na minha conta.” – dizia, já meio quente, o Jacinto das Covas. “Amecê que não se apoquente, Nossenhô vai deparar.” Fechando os olhos à compridez da dívida no prego, o vendeiro assentia com um estalido sonoro no palito que pendia da boca. A garrafa solfejava sobre a fila de vidros bacentos, depressa desfeita (antes que o grogue rendesse o espírito ao frio da ocasião). Numa prateleira, entre as botelhas de genebra e os pesos oxidados da balança, um busto de Napoleão fazia as vezes de S. Martinho – aliás, ninguém lhe sabia a proveniência nem a identidade verdadeira (feição de gente em barro só poderia ser de santo e, numa taberna, apenas um ousaria ficar). Quando o timbre do sino anunciava a morte de algum cliente habitual, Manelinho, o vendeiro, tinha por hábito acender a vela que ladeava a estatueta – para jubilação dos embeiçados que, ao toque de finados, corriam para apanhar a rodada de sufrágio que o costume ditava ao dono da venda. Cabeças descobertas empinavam-se às vigas do tecto, deixando um “em paz descanse” reverberar no fundo do copo virado. “Venha outra, esta pago eu, tenho aqui que dê!”, fundamentava o Juvenal da Fonte. “Nã senhor, si que guarde o seu sustento que eu já disse que tá por minha conta.”, aditava o Jacinto, sob o olhar aborrecido do vendeiro. “Deite mais uma e assente aí! Nossenhô vai deparar!” Vira o palito e canta a garrafa.

Na loja da Mariazinha Ribeiro afinavam-se as gargantas com um licorzinho de nêspera. “Nã se faça de rogada, é para aquecer!”, caçoava a Sãozinha com uma maliciosa cotovelada na hesitação artificial da Augusta da Beira. “Sabe que eu não sou de beber…” objectava, emaranhada, antes de esvaziar (de um só trago) a bota de cristal. As mulheres do sítio aninhavam-se nos recantos do espaço, abrindo a mão ao néctar que girava enquanto Mariazinha percorria a caixa das letras. “É esta! Esta é bonuita. Já tem uns bons anos, mas é bonuita.”, sentenciava a Inês do Bento. As estudadas, a um canto, começavam a copiar a letra. Entretanto, sob o compasso da agulha de tricot de Mariazinha, ganhava corpo a romagem (e ninguém reparou na folha virada do avesso que a vizinha Susana fingia ler). “A barquinha vem à barra…”

Do outro lado do córrego chegam ecos de outras cantigas (mais harmoniosas ou, talvez, menos regadas). Ensaia-se o Anjinho. A mélica voz que ressoa pelo vale faz serenar a tormenta dos homens na venda. Acordam-se as lembranças do regaço materno – e até o Napoleão, lá na prateleira das genebras, parece esquecer o Império que perdeu.

(À memória da minha avó Guilhermina)