De que é feito um país?

Há países que medem o índice médio de felicidade. Outros há em que essa felicidade nem entra na equação das decisões. É coisa assim de trazer por casa, na intimidade de cada um. Pessoal e transmissível dentro de uma atmosfera protegida e privada.

Na verdade, países como o meu não parecem interessados na minha ou na nossa felicidade. A atenção está virada para as coisas macro e importantes, que fazem a estatística e que não irritam os mercados, nem os deprimem. Isso sim é importante. Mercados felizes e não sujeitos a depressões. Bastam as depressões atmosféricas.

A felicidade é coisa para poetas e visionários, gente que até acumula muitas vezes a poesia e o sonho e outras coisas congéneres.

Imagine-se um país preocupado com coisas como a felicidade, o amor, o sonho, a poesia... Os países não se podem agastar com tanto.

E é assim que a nossa felicidade, e com ela a nossa vida e até a forma como morremos, interessa pouco ao país.

É chato quando a tristeza e a morte se tornam visíveis. Há que dar explicações, encontrar bodes expiatórios, ou bodes simplesmente. É uma maçada. Aquele tipo de trabalho sujo que alguém tem de fazer.

A sorte é que as notícias, mesmo as mais desgraçadas, passam rápido na voraz velocidade do mundo. Gastamos durante dias o assunto até ele perder o peso, a dor e o sentido. Não há nada que não se esvazie à força de ser repetido. E depois o país sabe que o país esquece. Velho demente que nunca se preocupou realmente com as coisas da humana gente.

E, na verdade, para quê se preocupar com essas coisas. Por pudor ou falta de meios a maioria tem a decência de morrer sem fazer alarido. Pelas mesmas razões, a maioria é infeliz em silêncio. Graças a Deus, pensa e reza o país, que na verdade nunca teve muita pachorra para a vida alheia ou própria.

Mas, lá de vez em quando, há quem morra no meio de um estrondo. E aí os mais lúcidos questionam a verdadeira natureza do país, a sua verdadeira índole, o seu real papel.

Pode um país ser sério quando falha a felicidade? Pode um país ser sério quando não garante a vida plena ou a morte serena e leve na hora certa?

A qualidade de um país devia medir-se não apenas pela forma como permite a vida e a felicidade, mas também pela forma como deixa que se morra.

E, sejamos sérios, um país onde se morre a combater o frio com um motor ligado, um país onde se tem de escolher entre ficar quente ou respirar, um país onde se morre a atravessar a estrada quotidiana, onde se morre porque nos foge o chão debaixo, não pode ser um país a sério.

Sim, um país mede-se pela qualidade de vida, mas também se mede pela qualidade da morte. E este é um país onde se morre tristemente demasiadas vezes. Um país onde se vive tristemente com demasiada intensidade. E entre estes dois momentos, tudo falha, todos falhamos e falha o país.