O homem invisível

Quem não é para comer, não é para trabalhar, diziam os mais velhos, enquanto empurravam o papo-seco da manhã com o ‘meio cales’, que era mais certo na tasca durante a semana, do que a missa na igreja ao domingo.

Ele era sequinho e de poucas falas. Bom dia, boa tarde. - De certeza que nem come, comentavam quando ele passava de enxada ao ombro, mal raiava o sol. Passava o dia circunspeto entre as suas bananeiras na beira-mar. Os homens especulavam que talvez fosse jeová, que nem à missa ia. E as mulheres intrigavam-se com os olhos meigos escondidos debaixo de barba farta, mas ele não demonstrava qualquer interesse. Elas não gostavam.

Dizia-se que a mulher tinha morrido e que ele morrera também, apesar de continuar todos os dias, mãos calejadas da enxada, de sol a sol, como se salvasse a cada rego um bocadinho da sua alma. Também havia quem garantisse que a tragédia seria maior, que tinha perdido o filho e a mãe da criança tinha perdido o juízo com o desgosto.

Nem mulher, nem amigos, nem fé, nem nada, só o silêncio, que se foi instalando, quando os bons dias e tardes foram ficando cada vez mais inaudíveis. Os homens da tasca deixaram de se incomodar com a indiferença. Já não se preocupavam com o facto de ele não partilhar copos de quarto litro depois de darem o dia fora, enquanto as mulheres os praguejavam em casa. Deixou de se ouvir que ele devia pensar que era melhor que os outros.

Os olhos mal se viam por detrás da barba comprida, nem se percebia que eram claros como a água e já não havia sinais da meiguice dos primeiros dias, quando se instalou na aldeia, com uma irmã. Os sobrinhos estavam na cidade e vinham ao fim-de-semana. Era um fantasma. Até que um dia, anos depois, tirou a barba, ninguém na aldeia o reconheceu. Desapareceu da mesma forma que viveu. Dizem que sorria e que parecia feliz, mas os homens da taberna nunca lhe perdoaram por nunca lhes ter pago um copo de jaqué.