Enfim, é Natal

Há certos sentimentos nesta vida que são inexplicáveis. Na verdade, se pararmos para reflectir um bocadinho, podemos ser adeptos da vivência pessoal – todos os sentimentos são vividos de forma pessoal e intransmissível. Isso é a realidade, mas há certos sentimentos que conseguimos transcrever em palavras. Eu, geralmente, não tenho problemas em expressar em palavras aquilo que alimenta a minha alma. No entanto, nesta altura do ano é complicado, para mim, conseguir transmitir o sentimento que me aquece o coração.

As ruas enchem-se de luz. O som característico das músicas natalícias invadem o ambiente. As pessoas parecem mais felizes – em paz. As crianças saltitam e escrevem cartas a um senhor de barbas brancas. De repente, as casas camuflam-se de decorações natalinas, cobrem-se de mangueiras de luz (como se diz na minha terra). As árvores, que começam a ficar nuas, com sorte ganham algum brilho e fazem daquele momento seu. O frio começa a instalar-se. As pontinhas do nariz ficam gélidas, as bochechas vermelhas e as mãos mais frias do que a própria neve. Mas, é o que dizem, não é? Mãos frias, coração quente.

E é exatamente esse o auge do sentimento que o Natal me transmite. A mim. Há pessoas que defendem que o Natal só se vive em Dezembro. Outros que já em Outubro ganham o espírito natalino. Eu sou intermédia. Basta chegar o frio a valer que fico em êxtase por saber o que por aí se adivinha. Mais feliz que o normal, na verdade. Não sei muito bem porquê, mas o Natal tem um cantinho especial na minha vida. Pudesse viver-se este espírito o ano inteiro e seriamos melhores.

O Natal representa mais do que presentes e bem mais do que o significado religioso que a ele está agregado. Não quero entrar por esses caminhos apertados. Para mim, é no Natal que as pessoas dão de si o melhor que têm. Conseguem ser melhores e experienciar a vida de uma outra forma. Claro que o Natal não tem o mesmo significado para a toda a gente – e isso é totalmente válido. Em outros textos, já falei muito sobre sermos sempre a nossa melhor versão, mas é muito mais fácil falar teoricamente do que ver em prática aquilo que escrevo nestas páginas. Acredito que as pessoas contagiam-se umas às outras e a boa energia que o Natal emana, conquista toda a gente.

Basta olharmos à nossa volta, atentamente – como as famílias que não se vêm todos as semanas se reúnem como se estivessem sempre juntos, como montar uma árvore de Natal se torna a tarefa mais especial daquele momento, como as pessoas vão, animadas, comprar uma prenda a uma pessoa amada para a fazer sentir especial, não pelo sentido material do acto, mas pela lembrança e pelo gesto.

É claro. Num mundo ideal, o Natal seria sinónimo de positividade para todos no mundo. A generosidade, a benevolência, o espírito solidário são alguns dos sentimentos que sinto a pairar no ambiente quando chega esta altura no ano. Embora seja da opinião de que isso deveria ser uma constante – durante o ano inteiro – é nesta altura que o sinto mais presente. De certa forma, o Natal também serve para nos lembrarmos do quanto afortunados somos por ter um lar. Daí podermos usar a nossa energia para fazer o bem a quem não levou uma pedrada da vida.

A solidariedade, que deveria fazer parte do nosso quotidiano, vincula-se ao Natal e a todos os que dão um pouco de si e muito do seu tempo para ajudar (e presentear) quem precisa, a minha eterna gratidão. Que possamos todos fazer do Natal das pessoas menos afortunadas do que quem o é um bocadinho melhor - seja com uma conversa, um abraço ou um sorriso. Basta pouco para fazermos os outros felizes.

Já ouvi diversas opiniões sobre o Natal. Sobre o seu verdadeiro significado, sobre o capitalismo envolvido, sobre o quão ingénuos conseguimos ser nesta época, mas apesar de ouvir as diversas opiniões sobre o Natal, acredito que podemos usar estar altura para sermos melhores. E aprendermos que esse melhor deveria existir o ano inteiro. Que possamos sempre lembrar-nos da nossa família, dos nossos amigos e essencialmente das pessoas que, apesar de estarem sozinhas, merecem também atenção. Que possamos sempre estar presentes, mesmo quando o tempo não nos permite. Que possamos esquecer o capitalismo envolvido em épocas comemorativas e nos relembremos que a vida passa depressa. E propagar o ódio e o rancor não deveria ser prioridade de ninguém, em nenhuma altura da vida. Que possamos ser mais felizes, acreditar nos sonhos mais puros das crianças e vivermos, com toda a magia, esta época natalícia.