As cidades são manhosas

Um cronista luandense disse, um dia, «que a melhor maneira de um gajo amar uma cidade é fingir que não a ama, embora isso seja extremamente difícil pois as cidades belas como tu, (Luanda) são muito manhosas (…).

Manhosas. É o termo certo. Elas, as cidades, são capazes de tudo. De explodir em fúrias de adrenalina pura ou mergulhar em longas e inexplicáveis letargias. São capazes de devorar a paciência de qualquer dos seus moradores ou transmitir-lhe uma dose de serenidade feita de modorras e indiferenças. Mas duvidem de ambas. Duvidem mesmo. As cidades são complicadas de tão fáceis que são. Mas são difíceis de tão complexas que as tornam.

Será que Luanda tem alma? Sente? Reage? Será que se irrita quando descobre que os seus mais de seis milhões de moradores a sujam com três mil toneladas de lixo por dia? Será que a cidade se revolta quando os seus moradores ignoram os contentores, poucos, é verdade, e atiram o lixo para qualquer canto? Todos os cantos? Ou quando os vasculham em busca sabe-se lá de quê, desde cartões, eletro-domésticos avariados, peças de motores, fio de cobre e espalham a toda a volta o pouco lixo que alguém neles colocou? Será que elas se alegram quando os citadinos colocam o lixo certinho nos contentores?

Será que as cidades choram quando não as compreendemos? Será que elas sentem e se sentem com a indiferença ou a maledicências dos seus citadinos, com a falta de civismo, com a falta de educação, com as faltas e as falhas?

Será que as cidades gostam de ser elogiadas mesmo quando moem a paciência e complicam a vida dos que as habitam? Será que as cidades se sentem ludibriadas quando não lhes tapam os buracos ou abrem novos, ou lhe fecham ruas para obras intermináveis? Será que elas se zangam quando a chuva lhes alaga largos e praças por falta de drenagem ou lixo nas sarjetas? Será que elas se zangam quando o desleixo e outros “des” lhe cortam o abastecimento de água e ou de energia elétrica? Será que elas se alegram quando lhes sinalizam as estradas e cruzamentos ou lhes ajardinam os baldios e rotundas com flores e árvores? Quando lhes tapam os buracos das ruas e asfaltam novas ruas? Quando lhes desobstruem as sarjetas e drenam fossas a céu aberto?

Quem souber que responda que eu, francamente, continuo convencido que elas, as cidades, grandes ou pequenas, são sempre manhosas. Cínicas, há, também, quem as considere assim. Mas nem tanto!!!

As manhas de Luanda são muitas. Variadas. É preciso conhecê-las para as derrotar. Para as aceitar. Para as odiar ou amar. Porque «a melhor maneira de um gajo amar uma cidade é fingir que não a ama».