Uma seta encravada na alma da cidade

Não sou natural do Funchal, nem mesmo estou naquelas situações em que, sendo a família de outro concelho, no BI constava São Pedro, porque esta é a freguesia do hospital.

Ainda assim, tal como a maioria dos madeirenses, sempre senti esta cidade [a única na Região até há poucas anos] como minha.

Apesar de morar noutro concelho, foi também aqui que concluí o secundário e onde sempre trabalhei.

E, por isso, esta é também a minha cidade. Conheço-lhe as ruas, os edifícios, os locais e muitas das gentes que lhe são características, muitas delas agora somente presentes na memória.

Mas ao contrário das pessoas, o património imóvel e urbano não tem de ser efémero. Não tem de estar sujeito às modernidades e a intervenções em que se tenta dar uma nova ‘roupagem’ àquilo que estava bem.

Modernizar não significa destruir, nem sequer fazer por fazer. Não significa dar cabo de anos de história só porque entendemos e queremos mostrar trabalho. Não significa afunilar ruas e condicionar o trânsito, nem copiar modelos que não funcionam para nós. Ou alguém, no intimo da sua honestidade interior, considera que as ruas do Bom Jesus e João de Deus estão melhores agora do que estiveram durante as últimas décadas?

Não vale tudo para deixar uma marca. Fernão Ornelas só houve um e fez aquilo que se imponha numa cidade que estava em crescimento e que precisava de grandes infraestruturas.

Engane-se quem pense ficar para a história por cumprir semelhante missão.

Hoje, salvo raras exceções, o trabalho na cidade é maioritariamente de consolidação e de recuperação urbana, nos casos em que ela é efetivamente necessária.

É disso que o Funchal precisa. De ruas limpas, de edifícios reabilitados, de jardins bem tratados. Precisa sobretudo de manter a sua originalidade e genuinidade. E com isto já tremo a imaginar a anunciada intervenção no Mercado dos Lavradores.

O que os funchalenses e os madeirenses precisam é que cuidem da sua cidade, para seu usufruto e não apenas, como diz o povo, “para inglês ver”, porque não só os locais apreciam cada vez mais a vida e particularidade da sua cidade como aqueles que nos visitam procuram experiência únicas. É pela genuinidade que nos diferenciamos. Por aquilo que é só nosso, que está impresso no nosso ADN e pelo que foi materializado na arquitetura urbana e rural.

Claro que não podemos travar o desenvolvimento, há que investir na melhoria da cidade, mas, por favor, não inventem. A cidade é minha e é de todos nós e não somente de uns que, no momento, têm o poder de decidir. O Homem passa, a Cidade fica. Que fique com aquilo que tem de bom e renovada naquilo que tem de ser renovado.