Histórias [da vida]

Nem todas começam como as histórias de princesas, palácios e dragões que as mães contavam aos filhos, no tempo em que havia tempo para contar histórias. Muitas começam com lágrimas, sem lugar para o encanto ou para o beijo do príncipe. Muitas começam porque não parece bem não começar.

Nem todas têm um final feliz, tipo [diriam os jovens] “e foram felizes para sempre”, porque o conceito de felicidade mudou, aos olhos da modernidade e a expressão “para sempre” deixou de fazer parte do protocolo das vidas reais, assim como alguns valores, algumas preocupações, alguns entendimentos das coisas e do mundo.

Há histórias com enredos complicados e personagens que têm facas no olhar; nas palavras, a amargura de quem não conhece o valor das palavras doces e a incapacidade de manter as mãos abertas o abraço pronto.

Há histórias assim, nas vidas que vivem a meu lado. Tristes. Vazias. Sem esperanças para animar as casas. Sem alegria que se veja, ao lado da roupa que já nem cora ao sol, porque até o sol arrefeceu.

Há histórias de vida com morte dentro, com cemitérios a fazer as vezes do coração: nomes que a indiferença matou e se enterrou; gente com quem não pretende falar mais, gente que já morreu, mesmo sem ter morrido; pessoas que a memória quis apagar e não conseguiu.

Há histórias da vida que são de faz-de-conta: que se é feliz, que se está na moda; que se enche os lugares por onde se anda; que se continua vivo; que só o agora interessa.

Há histórias da vida que são assim. Eu sei. E não gosto de saber.

No entanto, é [também] por causa disso que nunca me esqueço de agradecer a minha história que, não tendo o que muitas têm, tem aquilo de que preciso para ser feliz.