Que valores nos regem?

No passado dia 30 de junho fiz a viagem de regresso da Ilha do Porto Santo, após assistir às festas dos santos populares que, por todo o lado, começam a anunciar o verão.

Gosto de ver as marchas ao padroeiro-mor da terra, o São João. Aprecio todo o cuidado e bom gosto dedicado à confeção de fatos e de adereços apresentados no desfile e acho excelente o facto de cada sítio compor as letras e músicas das suas marchas, ao som das quais adaptam passos e danças, em coreografias originais que se vão desenrolando pela rua ao ritmo das bandas filarmónicas de que os grupos se faziam acompanhar.

Nas bermas, visitantes e locais, de telemóvel estendido, recolhiam imagens enquanto iam tecendo os seus comentários. Duas queixas se repetiam: a música pouco animada, por só se fazer ouvir quando a banda se aproximava e o longo tempo de espera entre a passagem dos grupos.

Muitos reclamavam da ausência de aparelhagem capaz de emitir som a muitos decibéis. Expressei a minha discordância, argumentando que de muito mais valor é a cor da humanidade que ali estava, na sua criatividade genuína, inspirada na história e no viver da terra, do que o recurso à reprodução estereofónica de uma qualquer marcha, samba ou outra melodia já estafada. Não concordaram.

Na véspera de São Pedro, que, na ilha, é também devotado a São Paulo, já a noite havia caído, subi a encosta para assistir ao leilão de peixe que tradicionalmente se realiza junto à capela dedicada aos dois santos. Entre as piadas do leiloeiro e as dos licitadores, as risadas fluíam, enquanto os peixes iam sendo adquiridos a preços mais ou menos injustos, o que pouco interessava, pois o objetivo é ajudar os que precisam e a diversão geral está garantida.

No dia seguinte, descem os dois santos à praia, em procissão de devotos que os transportam sobre andores floridos. Com restos de maresia nas vestes, logo retornam Pedro e Paulo ao espaço sagrado onde permanecerão até ao próximo ano.

Era também, para mim, hora de regressar a casa. Embarquei num Lobo Marinho a abarrotar de passageiros, onde, apesar das cadeiras suplementares colocadas nos corredores, não havia assentos para todos. Conformados, acomodámo-nos para a viagem sentados no chão, o que, aliás, não seria a primeira vez.

Fico com aquela sensação de estar a viver algo que não é correto e de estar a ser vítima da falta de respeito de outros. Não me parece bem que se aceite mais passageiros do que aqueles que o barco pode transportar com o mínimo de condições. E esse mínimo será um banco, de preferência com um encosto que não esteja avariado como os que, com alguma frequência, me calham.

Para esta deslocação, paguei, para duas pessoas e o carro 247,00 euros, só posso esperar que essa exorbitância implique algum conforto.

Passado algum tempo, surgiu um assento disponível no “Salão das Desertas” e lá me instalei. A sala estava repleta, mormente de jovens adolescentes, acompanhados pelos seus professores, que assistiam fervorosos ao jogo Portugal-Uruguai, transmitido, em uníssono, pelos 3 ecrãs em frente aos passageiros. Cantavam o hino nacional, exortando à luta os heróis da bola e desfiavam “fervorosos” Pai-nossos e Ave-marias. Tudo valia a pena tentar para que a vitória fosse nossa. Não resultou e fomos eliminados.

O jogo acabou e a sala despovoou-se. O Funchal já nos acolhia no seu porto. A emoção das incertezas do jogo e a vivacidade juvenil ajudaram a tornar a viagem mais breve. Não fora o senão de estes jovens acompanharem os cânticos e as orações de sessões de flatos fedorentos, e até me teria esquecido das atribulações iniciais. Assim, foi sofrer até ao fim.