Uma grande… “burrada”

Já lá vão muitos anos que esta estória aconteceu. Aconteceu mesmo e porque os anos não devem apagar a História, nem as estórias, ela aqui vai, em jeito de crónica repassada de humor, para que o vosso fim de semana decorra com um sorriso.

Tal como acontece ainda hoje, fazer o recenseamento da população angolana, num território tão extenso como Portugal, França, Espanha e Itália juntos, não é tarefa fácil. E a dificuldade vem de longe, do tempo da governação portuguesa em Angola, especialmente nas zonas distantes das cidades, no mato, como se diz ainda hoje. Por esta razão os chefes dos postos administrativos, não raramente passavam essa tarefa aos seus subalternos, em especial aos denominados aspirantes que eram assim uma espécie de pau para toda a obra. Foi exactamente um desses “paus para toda a obra” que, num qualquer posto administrativo do distrito da Huíla, no sul de Angola, foi encarregado de fazer o dito recenseamento.

Carrinha do posto preparada, folhas de recenseamento colocadas na pasta, enlatados para uns quantos dias e, em companhia de dois cipaios (*) lá partiu o nosso homem para a árdua tarefa de saber quantos eram os “machos”, as “fêmeas”, os jovens com idade de ir par a tropa ou para o contrato, as crianças e, para além disso, quantas galinhas havia em cada sanzala, quantos patos, porcos, bois e até burros, se fosse caso disso.

Desdobradas as folhas de recenseamento na mesa desmontável que fazia parte da bagagem arrumada na carroçaria da carrinha com o respectivo escudo da República e o nome do posto pintado nas portas, as perguntas iam marcando vagarosamente o passar do tempo, não tanto por zelo do funcionário mas porque, não raras vezes, os nomes não eram fáceis de perceber para um português e também porque a idade dos recenseados tinha de ser calculada por respostas do género “nasceu no ano do gafanhoto” ou “foi na seca grande do Cunene”. Depois de anotar os nomes, sexo e idade aproximada, vinham as perguntas sobre os bens e haveres existentes na sanzala de pronto anotados na coluna respectiva… galináceos, bovinos, suínos e até asininos não fosse haver, por ali, algum burro que tivesse, também, de ser recenseado.

Foi exactamente esta coluna a origem da estória verdadeira, volto a frisar, que aqui fica, para que se não perca na memória dos tempos.

Regressado ao posto, alguns dias depois, o nosso aspirante fez a entrega, ao chefe de posto, das folhas preenchidas “sem falhas e com todo o cuidados, chefe”. Uma vista de olhos mais cuidada pelo número de habitantes, que os responsáveis dos postos mais ou menos sabiam qual era, com mais morto menos morto de um ano para o outro, e lá seguiu o recenseamento para a Administração do Concelho no Lubango.

Dias depois, porém, o correio trouxe tudo de volta. A acompanhar a devolução da documentação, um ofício solicitando a rectificação do número de asininos pois, em todo o posto havia, mais de mil asininos o que, diga-se de passagem, era burro a mais. Ciente do engano o chefe chamou à sua presença o aspirante para que o elucidasse sobre as razões de tamanho erro.

- Erro nenhum chefe. Escrevi as respostas que me deram.

- Tudo bem, mas aqui para esta coluna dos asininos o que perguntou você?

- Perguntei quantos patos tinha, quantos perus, quantos…

- Espere aí, espere aí, – interrompeu o chefe quase tapando, com a mão, a boca do aspirante – o que entende você por asininos?

- Asininos, chefe, são animais com asas, excepto as galinhas que são galináceos.

Após um minuto de silêncio em que o espanto do chefe não se conseguiu despregar da cara do seu funcionário, a ordem veio rápida e perentória.

- Sente-se ali na máquina e escreva o seguinte…

“Em resposta ao vosso ofício, datado de tantos de tal, venho, pelo presente, informar Vossas Excelências que, aqui no posto, burros há apenas dois. O meu aspirante que fez o recenseamento e eu que assinei, sem ler, com a devida atenção, aquilo que ele escreveu…”

(*) Cipaio – Uma espécie de polícia ao serviço e pertencente aos postos administrativos.