As casas

Há sempre um deus fantástico

nas casas

Em que eu vivo, e em volta

dos meus passos

Eu sinto os grandes anjos cujas asas

Contêm todo o vento dos espaços

Sophia de Mello Breyner,

in Dia do Mar.

​A memória ajuda a traçar caminhos velhos. Leva-nos pela mão a lugares esquecidos, lugares onde a nossa vida aconteceu, lugares onde rimos, onde choramos, onde amamos, onde morremos. Às casas, por exemplo. Às nossas casas. Àquelas que, um dia, por razões que só a história de cada um conhece, tivemos de fechar.

As casas são fiéis testemunhas do percurso de cada um: os retratos das molduras, os segredos das gavetas, as provas das viagens, os cheiros da cozinha, pegadas das nossas geografias, objetos que, um dia, foram importantes para nós.

Aprendemos o mundo através dos olhos das casas. Lembramo-nos do tempo em que sonhamos com varandas de ver-o-mar, em que inventamos vidas para os transeuntes da rua, em que espreitamos os passos de alguém, ou esperamos que um qualquer olhar se desviasse do chão e se prendesse ao nosso.

Têm alma as casas da nossa vida. Têm-nos dentro. E nós, com o tempo, vamos guardando as casas dentro de nós. Lá cabe o que a vida contém: o bem e o mal, o grito e o silêncio, as delicadezas e os amuos, o trabalho e o descanso. Guarda-se tudo, dentro das casas – guardanapos e barquinhos de papel, cartas de amor e flores secas, botões desirmanados e bocados de pano, máquinas cheias de ferrugem, postais enviados por gente de quem já não nos lembramos, bocados de brinquedos, cadernos roídos pelos bichos, tudo. Guarda-se tudo dentro das casas.

E se é difícil mudar – porque não se pode levar tudo, porque não se quer levar tudo, porque se quer deitar tudo fora, porque não se quer deitar fora a maioria das coisas – é muito mais difícil fechar as casas.

Aí faz sentido o poema da Sophia. Os anjos. Os ventos dos espaços. A memória das coisas. E o fim. Fechar uma casa é encarar um fim: de um tempo, de uma qualquer relação, da vida.

Enfiamos, então, pela última vez, a chave na fechadura. E rodamos. Uma vez. Duas vezes. Já está. JM

​E fazem tanto sentido os versos de Ruy Belo:

​“Só as casas explicam

que exista

Uma palavra como

intimidade”.