Ensaio sobre o deserto

O que torna o deserto bonito – disse o principezinho – é haver um poço escondido em qualquer parte.

​ (Saint-Exupéry)

​Finda a folia, o silêncio. É assim todos os anos, quando se arruma o Carnaval no fundo dos dias e se guarda a lembrança de uma gargalhada que exorcizou os dias difíceis.

O que vem agora, enquanto esperamos pela Esperança, é o deserto. A quaresma oferece-nos esta possibilidade de nos perdermos, de nos procurarmos, de nos confrontarmos com a nossa sede. O que nos é pedido, neste tempo, é que nos ajoelhemos às portas de nós e nos reconheçamos frágeis, tantas vezes feitos de chão, tantas vezes quebrados pelo peso dos mundos que carregamos por dentro, tantas vezes cansados das mortes que transportamos na alma, tantas vezes. No deserto, o mal é a vontade de desistir. Essa é a tentação loura do vazio: desistir, entregar a coragem de mudar e voltar a pegar no alforge das coisas noturnas e começar tudo, exatamente da mesma maneira. No deserto, porém, há “qualquer coisa que não se vê, mas que brilha em silêncio” (Saint-Exupéry): miragens, talvez, poços escondidos que matarão a sede, verdades que nos salvam da nossa fraqueza. Para o ver (“o essencial é invisível aos olhos”), é preciso ter sede. Para chegar até ele, é preciso querer ter sede: “Dá-me de beber” (Jo.4,10). E a água que brotar do poço do deserto, será de vida eterna.

No deserto, a imensidão. Sem tempo. Sem princípio nem fim. No deserto, a procura. E a vontade. É a nossa sede que nos impele a procurar a água. E o silêncio. É no silêncio do deserto que germina a semente da luz.

Experimentar este deserto é empreender um caminho de esperança. E é ela que faz andar o mundo e nos impede de morrer.