Olhar sobre a fragilidade

Em cada manhã, a luz descose a noite e mostra-nos que é possível entrever o céu. Sabemos que a vida recomeça e que o caminho se abre, uma vez mais, em direção àquilo que tem de ser feito. Em cada manhã, o chão fica, porém, mais perto. Porque o tempo. Porque o desgaste. Porque os dias correm, a um ritmo que nos assusta: janeiro já acabou, o carnaval vem aí, depois é páscoa e natal outra vez. Porque os dias são carrocéis que giram depressa. Cada vez mais depressa.

A nossa vida é feita de margens. Como as ribeiras que rasgam a nossa terra: ora mansas e delicadas, ora violentas e destruidoras. É assim. Aprendemos a viver à beira dos abismos e a ludibriar o medo. Sabemos, contudo, que a vida – a da nossa terra e a nossa – é um constante desafio: rimos e choramos, acreditamos e desesperamos, vivemos e morremos. Sabemos que cada dia que nasce é, no fundo da nossa verdade de gente, menos um.

Envelhecemos, meu amigo. Mesmo que não queiramos aceitar, a fragilidade mora na casa do nosso corpo: mesmo que disfarcemos as levadas que o tempo vai marcando na nossa pele, mesmo que os nossos cabelos tenham a cor que nós quisermos, mesmo que nos tratemos como miúdos eternos, vamos ficando mais frágeis e vamo-nos aproximando da margem de lá.

Custa muito (con)viver com a fragilidade, eu sei: a velhice, a doença, a solidão. E tratamos de a esconder às crianças, de evitar o contacto com outras margens, em nome do nosso medo. A fragilidade dos outros faz-nos lembrar as nossas próprias fragilidades. Fugimos dela, portanto. Fugimos de nós e da nossa verdade.

Seria tão mais fácil se não quiséssemos ser o que (já) não somos e aceitássemos as nossas fragilidades como mais-valias. O tempo ensina-nos a ser capazes de outras coisas, a sentir de outra maneira, a receber cada manhã, com gratidão. Seria tão mais fácil se conseguíssemos ver que há beleza na fragilidade. Uma parte de nós é feita de chão. Somos todos iguais, na fragilidade. É ela que irmana: todos choramos, todos sofremos, todos nos desencantamos. Somos frágeis, meu amigo. Mas temos dentro de nós um Sopro de Vida que não nos deixa ficar sentados sobre a nossa pequenez. Por que fugimos, então, da fragilidade dos outros? Por que ocultamos, então, a nossa fragilidade de nós?