O meu lugar

«Ao cair da noite, as ameias das montanhas rasgam o céu. Limpo, o céu deste inverno. Frio, nesta altura do dia em que a luz cede à escuridão um lugar para adormecer.

Guardo-me no silêncio da terra e permito-me escutar (que é muito mais perfeito do que ouvir) os segredos da ribeira que desce, mansa, para o mar. Ela conta do tempo e da história de outros anoiteceres. Ela conta de gentes que, ao longo de séculos (quase seis), foram conquistando o coração da natureza e construindo casas e cavando poios e lutando contra outros invernos, mais duros e mais rigorosos. Um fio de água basta para liquidificar o silêncio. A paz resume-se a este silêncio líquido. A paz. O meu lugar é o lugar da paz.

Eu sei que a cidade corre, a alguns minutos daqui. Eu sei que, a esta hora, as ruas se enchem de regressos, as casas estão cheias de ação, a vida acontece, como todos os dias. Como a minha vida de todos os dias. Hoje, não. Hoje, serei eu e o anoitecer; eu e os soldados de pedra do meu lugar; eu e os sussurros da terra e da água e da brisa que me põe fogo nos olhos. Hoje, sou eu e o meu lugar».

Podia ter escrito estas palavras em muitos lugares da minha terra. Podia guardar-me em outros recantos com silêncios assim. Podia anoitecer-me do mesmo modo, com outros cenários que me trariam memórias, narrativas, vontade de outros futuros.

Temos muita sorte, sabe? Vivemos numa terra em que é possível parar para retomar o caminho. Talvez seja esta a razão pela qual amo tanto este lugar. Talvez a minha vida precise do contorno das serranias, da linfa que corre nas veias da terra e que pinta de verde o chão que piso. Talvez seja, eu também, um bocado deste lugar. Talvez o meu coração precise do azul que, eu sei, mora lá em baixo e me leva (a)o mundo.

A ribeira canta, baixinho, uma canção de embalar. Mesmo quando não a ouço, eu sei que ela canta para me adormecer. Os montes protegem-me os sonhos. O mar está ali, à beirinha de mim.

Tem forma de coração, este lugar aonde pertenço. Amo-o. Ele é definitivamente meu.