Santo Amaro – o final da Festa

Foi o repasto de iguarias no Natal, as visitas aos familiares, os brindes e a animação da passagem de ano. Depois, veio o dia de Reis, com os cantares que vão sobrevivendo e o bolo-rei que já nem apreciamos assim tanto porque o temos nos supermercados durante todo o ano, e com inúmeras variantes. O bolo, que era rei, vê-se agora obrigado a partilhar o trono com o bolo rainha, príncipe e outros dignitários da corte pasteleira. Também lhe roubaram o significado, pois que a fava lhe tiraram. Há alguns anos, antes da chegada das grandes superfícies e da proliferação de tudo, quando cada coisa chegava na sua época, o bolo-rei só surgia nas pastelarias por altura do dia de Reis. Era confecionado por encomenda, principalmente, se o cliente pretendia um bolo de maiores dimensões. No seu interior escondia-se a fava, que ninguém queria encontrar, uma vez que tal significava ficar incumbido de comprar o bolo para o seu círculo de amigos, no ano seguinte, e o brinde que anunciava boa sorte para quem o descobrisse dentro da sua fatia. Hoje, grande parte dos fabricantes já não inclui estes amuletos de sorte ou azar na massa do bolo. Talvez por comodismo economicista ou talvez porque as simbologias se perderam e ninguém quer já saber delas. Este ano, no meu bolo-rei, só havia brinde o que tomei como bom auspício para o novo ano.

Agora, chega o Santo Amaro, uma espécie de prolongamento do dia de Reis: uma vez mais, cantigas, muitas vezes improvisadas no momento e adaptadas à situação, soam a anunciar a amigos e vizinhos a visita surpresa que lá vem. Os foliões mais escrupulosos não dispensam o avental atado à cintura, ou levar, a par dos instrumentos musicais, vassouras, pás e espanadores para garantir a boa varredura dos armários e, principalmente, as boas gargalhadas que as suas figuras motivarão.

Depois do Santo Amaro, tudo se aquieta. Pelo menos enquanto não chega o Entrudo.

Nos armários da cozinha esgotaram-se os últimos doces da Festa. Lá no recanto mais profundo, em esquecimento propositado, ficaram dois exemplares de bolo-de-mel que satisfarão súbitos ataques de gula, quando o Natal for já uma memória distante.

As estrelas e pingentes aconchegaram os seus brilhos nas caixas, onde permanecerão todo o ano a aguardar o momento em que voltarão a surgir refulgentes para, de novo, iluminar a nossa fantasia.

A árvore, agora fosca, despida de luzes e da magia que a seus pés se escondera por detrás dos laçarotes das prendas, há muito entregues aos comtemplados, deixou que lhe dobrássemos as folhas sintéticas e acomodou-se, conformada com o esquecimento que sobre ela cairá.

A rocha da lapinha, sem opor resistência, alisou-se e fez-se rolo de papel pardo, à espera de um novo assomo de criatividade que lhe torne a dar vida no Natal que virá, enquanto o milho das searinhas, libertado dos pequenos vasos em que germinou e transposto para a terra fofa, ganhará viço e garantirá algumas maçarocas para o São João.

A taça da lamparina foi lavada e arrumada na prateleira dos objetos que não serão usados tão cedo, e o menino, rei do presépio, com ternura e humildade, partilha agora o espaço de uma simples caixa de cartão com a vaca e o burrinho, certo de que, para o ano, voltará a nascer e a ser rei nas palhinhas, onde pastores e reis virão para o homenagear.

Toda a doçura mágica do Natal parece ficar em suspenso. Quieta, mas viva, sob um recatado manto de silêncio, mantendo em nós o sorriso da alma e a esperança no melhor da nossa humanidade.