O filme da minha vida

“Não gostei nada daquela crónica!” – Disse-me um amigo há dias, referindo-se ao texto da semana passada. “Comprei o jornal só para ler aquilo e foi a tua pior crónica!” – Acrescentou, sem papas na língua, para vincar bem a porcaria que lhe soube ler aquela parte da minha vida e do meu sentir e do meu pensar. Eu não quis saber porquê. Ele também não o disse. E, nisto, entrámos num bar, para beber um “café de cevada” – sempre achei extraordinário chamar café à cevada! Eu disse:

– Não se pode gostar de tudo!

– Pois não – respondeu ele.

E, de repente, veio-me à memória o meu último ano de vida, condensado num único e simples episódio, ocorrido algures no meio do verão passado. Foi um pequeno acontecimento que traduz, por assim dizer, toda a minha existência. Para mim – quero realçar – é muito importante que, de vez em quando, uma pessoa se resuma à sua insignificância diante da magnitude do universo e, sobretudo, que aceite a sua parte de silêncio e vazio no mundo antes da morte.

Naquele dia – ou melhor, naquela noite – tomei uns copos valentes.

Antes, quando eu era mais novo, bebia para caraças. Passava noites inteiras nas tascas e depois recuperava forças num instante, à conta da imortalidade. Nunca fui de drogas, pois sempre me meteram um medo dos diabos e ainda bem; mas lá no que toca a copos com os amigos, aquilo era uma festa constante. Vinho e cerveja, sobretudo. E sempre com o objetivo de descobrir a verdade, claro! Porém, já se sabe, a verdade reside impreterivelmente depois do próximo copo… É sempre preciso tomar mais um para alcançá-la…

Quando um gajo não se dá conta disto a tempo, ou vira alcoólico ou começa a investir na narração exaustiva das suas bebedeiras – a história das “grandes mamadas” – como se de uma odisseia se tratasse. Os olhos brilham, o tom de voz alteia, a alegria transborda e o mundo corre sem freio debaixo dos pés. Aquilo é que foi beber e aguentar! Porra! E até parece que atravessámos os Himalaias de ponta a ponta, sozinhos e sem comunicações, quando nem sequer fomos de um bar para outro na mesma rua.

Bem… Naquela noite, duas ponchas a rematar viraram-me o juízo do avesso. Ainda assim, conduzi o carro até casa – uma grande aventura de irresponsabilidade – e não falhei nada. O Fiat Uno ficou direitinho dentro da garagem da minha tia e, depois, fui a pé pela estrada abaixo em direção à minha casa, que fica ali perto.

Os cachorros avistam-me no escuro e começaram a ladrar. Eu já me marcava na vedação do quintal para a trepar e saltar, coisa que faço desde miúdo e sempre com a mesma agilidade, até porque continuo com o peso igual ao que tinha quando fiz tropa. Nada mau, hum…

Deito as mãos aos ferros, pé aqui, pé ali, e, nisto, ocorre-me que estou com cinquenta anos e perdi todos os meus amores, que dei a volta ao mundo e tenho uma filha deixada em África, que vivi sozinho no fim do nada e agora vivo outra vez em casa de meu pai, que tenho esperança sem limites e a conta bancária sempre a zeros, que escrevo com alma e coração mas quase nunca acredito na salvação…

Então, fiquei triste, lá no alto do gradeamento. A aguardente, oportuna, aproveitou para me empurrar e eu caí desamparado num canteiro do jardim. Esfolei um joelho, um braço e uma aduela. Os cãos fizeram uma grande festa e eu – azoado, mas sem rancor nem amargura – pensei:

– Esta é a minha vida!

De resto, acho que é o título de um filme. Não é?