Ainda não acabei

2017 foi um ano ímpar, acabado em 7. Foi um ano ímpar porque não voltará a acontecer, tal como todos os outros anos, pares ou ímpares. Para mim, foi um ano de equilíbrios, de contrabalançar e de fazer compensações. 2017 não deu para tudo, mas deu para muito.

Fiquei um ano mais velha e comecei a usar óculos, mas estive quase sempre rodeada por juventude. Viajámos, fomos a peças de teatro e concertos, almoçámos fora e jantámos em casa, deram-me dicas para aproveitar os saldos e para fazer compras online, ouvimos música e vimos séries, passeámos por Londres, Viana do Castelo e Lisboa, e comprámos uma bebida horrorosa num supermercado chinês. Fiquei um ano mais velha, mas rejuvenesci.

Ainda não foi desta que parei de fumar, mas bebi muita água e comi imensa fruta. Bananas, essencialmente, umas atrás das outras. Não voltei à piscina nem à rotina da natação, mas pude ir à Madeira nadar na praia Formosa.

Comecei a ter aulas de piano e parei de ter aulas de piano, antes de conseguir tocar o ‘“Easy Like Sunday Morning”. Conheci o trabalho do pianista André Barros e fiquei viciada no álbum ‘Circunstances’.

Li poucos livros, mas muitas crónicas e artigos da imprensa escrita ou online. Fico com a sensação de que em 2017 li mais em inglês do que em português. E fico com pena. Já está em marcha o acerto de contas.

Desenhei mais do que nos anos anteriores e tive a imensa vaidade de oferecer dois rabiscos emoldurados aos meus afilhados de casamento.

Paguei todas as contas, mas pude investir num curso de Pastelaria e em ingredientes para novas receitas. As cobaias agradeceram.

Em 2017 deixei por coser os botões que caíram das camisas, mas saí de casa sempre deixando a cama feita. Fiz visitas de médico. Fiz de psicóloga. Fiz-me de criança e tive acessos de birra que só quem nos ama muito pode tolerar.

Continuei sem conduzir, mas não chamei uma única vez nem a Uber nem Cabify. Fui de metro, fui de táxi, fui de boleia. Ou não fui. Marquei e desmarquei almoços. Marquei e desmarquei reuniões. Cancelei muitos compromissos.

Tive preguiça e deixei para amanhã. Mas cumpri as minhas promessas e já fiz outras tantas.

Admirei embevecida a covinha de um lado só na bochecha da Liniker e o seu canto de guerra. Ouvi vezes sem conta a poesia do Manel Cruz e fiz questão de o aplaudir em Paredes de Coura e em Lisboa. 2017 pode ter acabado, mas eu, como ele canta, “ainda não acabei”.

Ao terminar o ano, dei uma última olhada pelo retrovisor, agradeci sentida tudo o que foi e tudo o que poderia ter sido. Tudo o que foi fruto e tudo o que foi semente. Depois entrei em 2018 com energia para continuar. Continuar o que ainda não acabei, mas num ano novinho, feito de lavado, e que será um ano ímpar também.