Sobre um lugar

Quando o sol começa a aquecer o mar, há um lugar azul na minha liberdade. É um retângulo de cimento onde os mundos se cruzam em conversas que imitam as gaivotas e voam da vida para a bola, da política para o vento, dos livros para os silêncios.

É um lugar onde o mar não tem portas e permite o mundo comece à beirinha dos nossos pés. Bastaria isso para ser um lugar de liberdade. É um lugar onde a terra se encontra com o mundo que chega no marulhar das ondas que despenteiam o calhau. Bastaria isso para ser um lugar azul. É um lugar onde a vista se estica nos paquetes que chegam e que partem com sonhos antigos de viagens. É um lugar onde se pesca e se treina e se ri das tempestades e das levadias. Bastaria isso para ser um lugar poético.

Ali, há tempo. O de estar. O de contemplar o ir e vir das ondas que embrulham pedras na mudança da maré. O de permitir que a tarde se aqueça nos corpos oleados, livres de preconceitos, sem medo da velhice ou da celulite ou dos fatos de banho que transitaram do ano anterior. O de ser quem se é: gente que ama o mar e as carícias doces do sol.

Não sei como se chamam os meus colegas de lugar. Não sei o que fazem, nem de que partido são. Não sei se são casados ou se têm filhos ou se vivem em casas com malvas nas varandas. Não me interessa. Só sei que são meus irmãos nesta coisa de amar o mar e as carícias doces do sol.

Quando a tarde cai e o sol fica manso, ficam os residentes, os do costume, os que conheceram juntos outros entardeceres. Ficam por ali, entretidos à volta das canoas que limpam, que lixam, que pintam. Ficam por ali, com os olhos bêbados de maresia, poetas de um tempo que ainda existe.

No lugar azul da minha liberdade, não há doutores ou pescadores, ou funcionários ou desempregados, ou velhos ou jovens. Há gente que dá bom dia, que pede licença para ocupar a vizinhança, que oferece o jornal e partilha as bolachas, que tem o olhar atento quando o mar não está de amizades. Há gente que ama o mar e as carícias doces do sol. E eu gosto da delicadeza poética da gente comum. Gosto disto.