Do S. João ( por causa de um quintal de alguém que eu não conheço)

As memórias chegam atrás de coisas de nada: uma data, um cheiro, um retrato velho que se encontra dentro de um livro, um bocado de flor seca guardada no tempo das paixões.

Desta vez, foi a imagem de um quintal de alguém que não conheço que me levou ao tempo das cerejas e das noites quentes de junho e ao cheiro do atum a cozer na lentidão da tarde da véspera de S. João.

No quintal do alguém-que-não-conheço, há uma barraca antiga, feito de ramos secos de palmeira e de uns panos que parecem bandeiras que escondem os segredos da mesa que – imagino – se porá à noite. Não sei mais nada. O resto, os olhos foram buscar a um tempo que guardo em mim. E vou, contente, atrás de lembranças velhas: na rua de antes, morava a casa de antes e é lá que começam muitas coisas: a infância, por exemplo; a inocência, também. Tinha um terraço, a casa de antes. E uma mesa posta para a ceia. E balões com velas dentro que às vezes se queimavam, outras não, e se guardavam de um ano para o outro, mesmo que o sol já tivesse “desmerecido” as cores.

Na mesa, o atum (consigo sentir o cheiro da casa), as semilhas com casca, as pimpinelas que, cozidas, não picavam, as maçarocas e o feijão que se escapava da vagem, na ânsia da liberdade. E as gargalhadas. Lembro-me muito bem das gargalhadas do verão, desses tempos de sermos muitos e de haver uma cassete que tocava marchas e nos fazia bailar na rua, a de antes, à volta da fogueira:

- Um, dois, três… já.

Depois, íamos ao cais, ver a sombra no mar, porque a tradição dizia que quem visse a sombra na noite de S. João tinha a vida garantida até o ano seguinte.

E havia as sortes da manhã de S. João. E as bentinhas… e o cheiro do alecrim que nos ficava nas mãos. E as cerejas que navegavam em taças de vidro, ao alcance das nossas mãos.

Estávamos todos, nesse tempo. Não nos passava pela cabeça que, um dia, voltaríamos a olhar para os retratos a preto e branco que os pais faziam e pensar: este já não está, este também não…Ninguém pensava no futuro nesse tempo. Vivíamos e pronto. E não conhecíamos o cheiro a morte que os incêndios aprenderam a trazer, todos os anos. Éramos felizes e pronto.