Portugal em estado de guerra

Portugal já não tem uma grande vitória desde a batalha de Aljubarrota, com a sua dimensão simbólica e política, pois, apesar de termos estado do lado dos vencedores na Primeira Grande Guerra, nada se lhe compara.

Enquanto muitos países ocidentais são alvo de atentados terroristas por fundamentalistas de uma qualquer causa, o nosso País vive, nos últimos dias, em clima de uma profunda consternação em consequência do número de mortes resultantes de uma clamorosa derrota no combate às chamas, autêntica Alcácer Quibir dos tempos modernos.

No ano passado, tive de fugir de casa com a minha família perante os incêndios na nossa região, pois o cenário dantesco que se vivia então era complicado. Já este ano, por coincidência, estava em Leiria, apesar de estar a 30 ou 40 km de Pedrógão Grande, é certo que o cheiro a fumo sentia-se. Também tinha planeado ir na passada segunda-feira para Cortes, uma pequena aldeia próxima de Góis, Alvaiázere e Castanheira de Pêra, que fica mesmo ao lado de Pedrógão Grande, e, como é óbvio, essa viagem ficou cancelada para momento mais azado.

É arrepiante vermos na televisão as imagens, ficamos sem palavras só de imaginar como seria a aflição das pessoas a tentar fugir daquela situação.

A verdade é que não se tem conseguido ganhar esta guerra. Sun Tzu, em Arte de Guerra, diz que devemos escolher os terrenos onde lutar, mas, neste caso, nós nunca escolhemos, ou melhor, os nossos adversários escolhem, pois a mata e todas as condições dos terrenos são uma verdadeira acendalha para a ignição desta guerra. Já os nossos soldados da paz, esses sim, são uns verdadeiros heróis, pois lutam, sem qualquer capa, como os restantes super heróis, lutam com os poucos meios à disposição. Lutam com voluntarismo, não pelas suas vidas, mas por uma Pátria, pelos bens e a vida das outras pessoas. Estes merecem todas as homenagens que se lhes preste, mas também questiono-me: será que é necessário que haja contas solidárias para os nossos soldados da paz terem os meios de combate que urge? Para possuir as armas guerra, seria necessário os portugueses, além dos seus impostos, terem de abrir uma conta solidária para possuir material necessário ou até pagar os soldos? Não acredito que assim fosse. Então porque será que o Estado não financia, da forma mais adequada, os nossos soldados da Paz?

Não querendo personalizar a questão, no ano passado, quando fui ajudar a minha família na zona da Choupana, no Largo do Miranda, chego lá e estavam casas a arder. E quem estava lá? Dois bombeiros e um GNR, um dos bombeiros, cujo nome não sei, chorava, mas sei que aquela casa não era dele, e todavia ele sentia-a como se sua fosse. Ele, no entanto, não possuía meios à sua disposição para combater aquele fogo, pois o autotanque não tinha água. Tudo isso me comoveu, mas não me demoveu de ajudar no que pudesse e no que soubesse.

Já nestes incêndios, o bombeiro Gonçalo Conceição é um dos símbolos destes incêndios, um jovem de 40 anos e com um filho pequeno, partiu. Não com uma qualquer doença, não em um qualquer acidente, mas sim a defender a vida e os bens do próximo. Pegando no Gonçalo, que, infelizmente, nunca conheci, quero agradecer-lhe e deixar a minha homenagem a todos os bombeiros que arriscam e salvam as nossas vidas diariamente. Tanto os de hoje, como os de ontem que defenderam a nossa terra.

Não podemos, ano após ano, chegar ao Inverno e dizer: “lá vêm as cheias” e não haver qualquer preparação para esse cenário e imperiosamente não se pode chegar ao Verão e dizer: “como é possível haver incêndios?” A homenagem que os nossos políticos podiam fazer às mais de seis dezenas de pessoas que faleceram seria fazer com que a sua morte não tenha sido em vão. Como escreveu Luís Sttau Monteiro em Felizmente há luar, quando matam Gomes Freire de Andrade e a sua esposa Matilde com a sua saia verde de esperança: “Felizmente há luar para que todos vejam o que se passou e revoltem-se!” Hoje mais do nunca, há as redes sociais e a comunicação social, que, bem ou mal, serão o veículo do nosso grito de profunda tristeza determinada: “FELIZMENTE HÁ LUAR”! Mas será que há mesmo? Sim, há, tem de o haver!