Deixa-a morrer em paz

Eu tinha 22 anos e queria escrever um livro, mas não tinha nada para contar. Era demasiado novo – uma vida feliz e sem história. Andava sempre a tomar notas, lá isso andava, mas não serviam para nada. Descia todos os dias de autocarro e vagueava sozinho na cidade durante horas e horas. Tinha terminado o serviço militar há poucos meses e desde então gastava o tempo a calcorrear ruas e a tomar notas. Estava desempregado e os vizinhos já me chamavam vadio.

Numa tarde de chuva do mês de janeiro de 1990 encontrei por acaso um camarada que tinha feito tropa comigo e fomos tomar um copo na Zona Velha. Era um tipo de bom coração e até hoje não conheci ninguém tão apaixonado pela beleza feminina como ele. O modo como descrevia as mulheres, as palavras que usava, os gestos que fazia, a melancolia e o desejo que punha nos olhos e na voz eram de uma poesia inexcedível, suave e profunda, sem igual, mesmo quando o discurso escorregava para o ordinário.

O bar era escuro e as mesas demasiado baixas, o que nos obrigava a estar sempre curvados para pegar e pousar o copo, para apanhar os tremoços, para libertar a cinza do cigarro. Isso era irritante e desconfortável, mas, como estava a chover, ficámos lá um bom bocado e ao cabo de muita filosofia sobre o nosso futuro e os nossos sonhos e o que haveria de ser da gente dali a trinta anos, fez-se um momento de silêncio.

Depois, o gajo disse-me assim:

– Encena.

– O quê? – Perguntei, espantado.

– O que vês, o que sentes. Sei lá. Tu é que queres escrever um livro.

Encolhi os ombros e ele reforçou:

– Põe tudo da janela para fora.

– Qual janela?

– A da liberdade, a da maldade, a dos deuses. Sei lá que janela, porra!

As minhas histórias deviam ser as dele, pensei. E veio-me à memória a imagem da nossa camarata e ele estendido no beliche a descrever ao pormenor uma miúda que tinha visto no último fim de semana, a forma como o seu cabelo se alongava até ao meio das costas e mudava de tonalidade consoante a intensidade da luz e da sombra à medida que ela caminhava cinco metros à sua frente, linda, linda, linda de morrer. Às vezes até as feias eram princesas encantadas e eu adormecia ao som da beleza feminina.

– E depois de encenar, faço o quê? – Perguntei ao desafio.

– Escreves o livro – disse ele.

– E por onde começo?

Ele sorriu e disse:

– Já viste como a empregada é fascinante? Começa por aí.

Olhei para trás, para ver a empregada. Ela estava a tirar as cervejas que tínhamos pedido e assim, na penumbra, não lhe achei graça nenhuma. Para dizer a verdade, eu mal tinha reparado nela. No entanto, fiquei atento. Quando a rapariga chegou e se inclinou para colocar os copos em cima da mesa, vi-lhe os seios nus através do decote da blusa. Eram pequenos e calmos e cheios de frescura, de facto muito bonitos. Mas o que mais me fascinou nela foram os seus olhos azuis, tão azuis que pareciam não existir.

– Tenho ou não tenho razão? – Perguntou o meu amigo.

– Aqueles olhos, realmente…

– E as mamas?! – Disse o gajo irritado. – Não me digas que não viste as mamas?!

– Vi, vi…

Ele sossegou e depois disse que eu devia começar o maldito livro por ali, pelas mamas de uma miúda que trabalhava num bar foleiro na Zona Velha da cidade, e com base nisso, disse ele, eu poderia encenar uma volta completa ao mundo e voltar ao ponto de partida cheio de histórias para contar sem nunca ter saído dali, porque a vida é assim, tu vais e voltas sempre ao mesmo lugar, disse ele, e ainda acrescentou mais umas coisas altamente filosóficas que não fixei, porque às tantas já estávamos bêbados e além disso não constam dos meus apontamentos, e depois concluiu:

– Faz dela o que quiseres e no fim deixa-a morrer em paz.

Agora, decorridos mais de trinta anos, vejo que em parte foi exatamente isso que fiz com a minha escrita e a sua possibilidade oculta de beleza – deixei-a morrer todos os dias em paz, até hoje. Lamentavelmente, porém, nunca fiz dela o que queria.