A lavadeira inteligente

Na casa dos meus pais, havia um robusto poço de lavar em cimento, protegido por um quartinho de xadrez, acomodado entre o limoeiro e uma ameixieira e por ali passavam os vários passos da limpeza da nossa roupa. As peças eram ensaboadas, deixadas de molho ou postas a corar, esfregadas, enxaguadas e algures no final do processo havia que otimizar a alvura com a dose certa de anil. A tarefa exigia esforço e saber. Mas era assim, até à popularização das máquinas de lavar.

A primeira que tivemos foi da responsabilidade do meu pai que, certa tarde, entrou numa loja à procura de uma ninharia qualquer e saiu proprietário de uma máquina de lavar, após o convincente discurso do lojista sobre os méritos de tal auxiliar doméstico. A minha mãe olhou o objeto com desconfiança: podia lá aquele cubo branco lavar tão bem quanto mãos humanas?

Concluídas as ligações, a família reuniu-se para assistir à lavagem inaugural e durante largo tempo permanecemos a observar, através do óculo de vidro, o que acontecia no tambor circulante. No final, a roupa foi retirada e inspecionada, antes de ser posta a secar ao sol. Não houve reparos de maior sobre o desempenho do aparelho e gerir o seu funcionamento também se provou simples: bastava escolher o programa, mais longo ou curto, e a temperatura: fria ou quente, com valores térmicos entre os 30 e os 90 graus. Restava a opção de centrifugar, ou não. Ultrapassada a primeira reticência, máquina tornar-se-ia uma aliada preciosa. Lavou décadas a fio; deixava a roupa impecável, e nem reclamava se lhe pesava na cuba um ou dois quilos acima dos cinco recomendados.

Quando comprei a minha primeira máquina de lavar, quis a mesma marca e o mesmo modelo. O modelo, disseram-me, fora descontinuado. Mantive a fidelidade à marca, crendo que me garantiria a qualidade que conhecia. Os novos exemplares anunciavam-se portadores de grande inovação tecnológica e optei por um que me foi apresentado como a ‘menina dos olhos’ do fabricante, um rasgo de inteligência inaudito.

Uma desilusão: água entrava, água saía, aquecia a todas as temperaturas, sim. Porém, o tambor sofria de preguiça crónica e a roupa ficava cheia de sabão. A partir de então, passei a descurar o detalhe da marca. Mantenho, todavia, a nostalgia daquela primeira máquina, diligente e capaz de enfrentar a passagem do tempo, e procuro a que mais se lhe assemelhe. Uma busca inglória, pois cada uma vem mais sofisticada do que a anterior.

A atual é a mais inteligente de todas; mandona e intransigente. Os seus valores térmicos saltam de 20 em 20 graus e é ela a decidir em que programa posso recorrer a determinada temperatura. Exibe na fachada a capacidade: 7 kg. Contudo, se cumpro essa medida, ela irrita-se. Só funciona com carga reduzida. Se não, nos 6 minutos finais, desata a bater ensandecida e por vezes até avança aos saltinhos, meneando-se despudorada. Antes que se lhe solte a ficha, tenho de desligá-la, esperar uns infindáveis 3 minutos, abri-la e, depois, retirar parte da roupa e voltar a ligar o programa de centrifugação. Apesar de a roupa estar encharcada, a inteligente, volta a meter água, dá voltas, despeja e finalmente centrifuga, demorando 19 minutos, em vez dos 6 de uma centrifugação normal na sequência do programa. Ora, este suprassumo das lavadeiras, anunciada como grande economizadora, como se vê, é, na verdade, uma esbanjadora.

Será que a douta lata faz tudo isto para me castigar por continuar saudosa da outra máquina?