Espelho meu, espelho meu…

A primeira vez que eu perdi o sentido da vida devia ter uns 13 anos e aconteceu em casa das minhas tias em frente ao espelho de parede da casa de banho. Eu vivia com elas desde que o meu avô tinha morrido, cinco anos antes. Nessa altura, a minha mãe combinou com as duas irmãs solteiras que eu passaria a dormir lá para lhes fazer companhia. Como as casas ficavam perto, a meia dúzia de passos uma da outra, não se tratava de uma separação. Ela cuidava de mim durante o dia e as tias à noite.

Eu, porém, adorava a casa das tias e não arredava pé de lá.

Para mim, aquilo era um palácio encantado e a fazenda ao redor era uma floresta mágica. Havia um palheiro onde se guardava vinho e ferramentas, um poço sempre cheio de rãs e girinos, um porco a grunhir no chiqueiro, um monte de galinhas no galinheiro, flores luminosas no jardim e vasos coloridos no terreiro, árvores de fruto por todo o lado, paredes de basalto repletas de lagartixas, levadas cintilantes no meio dos poios, a ribeira lá em baixo, o caminho lá em cima, um cão sempre bem-disposto, vizinhos da mesma idade para brincar, o amor das tias e a saudade da mãe, uma vida inteira pela frente, grandes esperanças, grandes sonhos e, de repente, num final de tarde, quanto tinha 13 anos, não mais que isso, estando defronte do espelho na casa de banho, um espelho pequeno, pendurado num prego, perdi pela primeira vez o sentido da vida.

– Quem sou eu?

A pergunta conduziu-me ao abismo.

Na verdade, eu estava pedi-las. Levava já quinze minutos a olhar fixamente para mim, olhos nos olhos, e a repetir em silêncio a mesma pergunta:

– Quem sou eu?

Ficava um bocadinho à espera da resposta, como se fosse possível obter resposta para uma pergunta deste calibre, o nariz quase encostado na superfície, altamente concentrado, e tornava a formular a questão com veemência:

– Quem sou eu?

E assim foi até que me disparou um zumbido nos ouvidos e a imagem no espelho ficou desfocada, como se tivesse recuado ao infinito, voltando depois a grande velocidade, para logo recuar outra vez, para dentro e para fora, para dentro e para fora, de modo que senti uma vertigem terrível, dei um passo atrás, bamboleei, e tudo perdeu o sentido, a composição do meu corpo, o ar que respirava, o lugar onde me encontrava; tudo perdeu a forma, a casa, a fazenda, a água a correr na ribeira; tudo se desfez em nada, o meu passado, o meu imaginário, o meu provir e tanto assim foi que até pensei ser aquela a hora da minha morte, pensei mesmo que seria já o grau zero da minha morte, a primeira etapa sem vida.

Apanhei um susto do caraças e nunca mais repeti o jogo, nunca mais daquela forma infantil e desprovida de rede, mas devo confessar que ao longo dos anos perdi muitas vezes o sentido da vida e ainda hoje – ou talvez hoje mais do que nunca – continuo a perdê-lo. Não houve época nem lugar por onde tenha passado sem reparar no absurdo da existência.

Em África, por exemplo, eu acordava no meio da noite movido por sonhos estrambólicos ou pelo calor sufocante do Trópico de Capricórnio ou pelo zunido infernal dos mosquitos e sentava-me na beira da cama, debaixo do telhado de zinco da cabana ou no quarto de uma pensão miserável, punha as mãos na cabeça e fazia a pergunta:

– Quem sou eu?

Aqui, na ilha-paraíso, faço o mesmo, esmagado pelas notícias do mundo e pelas porcarias do dia-a-dia, destruído pela inutilidade dos atos e das palavras, arruinado pelo poder do dinheiro e das aparências, em vão calcinado pelo vulcão das emoções inexprimíveis e indecifráveis, às vezes ofuscado pela clara sombra da morte e pela triste figura da solidão, mas também embalado em sonhos perfeitos, em dias perfeitos, em feitos perfeitos, a querer saber aquilo a que nenhum espelho jamais me responderá, nem mesmo o espelho encantado em casa das minhas tias.

E o resto é vaidade…