É simples – vive!

Ainda agora, em Belfast, por onde andei em viagem de férias com a Pat, três vagabundos de olhos azuis passaram por nós numa rua do centro da cidade, muito bem-dispostos e expeditos, e um deles disse-me assim: Hi, Jesus! How are you? Eu, obviamente, respondi como me ensinaram na escola: I’m fine, thank you. And you?

Eles sorriram felizes e eu fiquei a pensar que ninguém me tratava pelo nome de Nosso Senhor desde os tempos de África, há muitos anos. Naquela época, em Moçambique, toda a gente me chamava Jesus e pronunciavam a palavra em inglês, exatamente como o vagabundo do Ulster. No bairro onde eu morava, lá no fundo da Zambézia, ninguém sabia ao certo o meu nome e os miúdos referiam-se a mim como Tio Jesus.

Devo dizer que havia boas razões para isso. O meu cabelo alongava-se em caracóis até ao meio das costas, a barba era preta, farta e densa, o corpo mostrava-se um tanto ou quanto esquelético e as roupas que o cobriam eram sempre meio esfarrapadas. Descontando os óculos e atendendo apenas ao meu aspeto físico naquele tempo, admito uma certa imitação de Cristo.

Agora, porém, uso o cabelo mais curto, a barba está grisalha, quase toda branca, e o corpo apresenta-se um pouco mais anafadinho, abafado também com vestuário mais fresco. Já não pareço tanto o homem que foi crucificado, mas ainda assim assemelho-me bastante à imagem que dele ficou impregnada no sudário de Turim.

O tempo é sempre uma questão de vida ou morte.

Seja como for, gostei muito de ouvir o vagabundo chamar-me Jesus e regressei contente a Dublin, que foi onde eu e a Pat ficámos hospedados durante a estada na Irlanda. Ali também aconteceram algumas coisas altamente cintilantes, como se fossem estrelas, apesar da sua aparente insignificância.

(Já agora convém lembrar que, mais cedo ou mais tarde, toda a gente acaba por perceber e aceitar que as pequenas coisas sem valor são de facto as mais importantes da vida e, regra geral, é a partir daqui que a pessoa começa a viver na plenitude, independentemente do mal e do absurdo do mundo.)

Bem, depois de um dia inteiro a percorrer a cidade, recolhemos ao hotel, cujo quarto era praticamente do tamanho da cama – eu nunca tinha visto quarto tão pequeno – e estando ali despidos, a Pat a tomar banho, eu a preparar-me para isso, eis que dispara o alarme de incêndio, um barulho ensurdecedor. Fiquei de tal forma aparvalhado e não percebi o que estava a acontecer.

– Temos de sair daqui! – Disse a Pat e já estava da porta para fora.

Não sei em que instante ela se vestiu, mas eu cá demorei algum tempo, sobretudo a calçar as botas, e o alarme sempre a tocar, e ela a gritar “Vamos! Vamos!”, até que eu lá fui sem apertar os atacadores, mas de repente, no meio do corredor, a Pat volta para trás:

– Esqueci-me da aliança na casa de banho! – Disse ela. – Não posso ir sem a aliança!

Sim, aconteceram tantas coisas luminosamente minúsculas durante as nossas férias. Em Évora, por exemplo, onde andámos antes de embarcar para a Irlanda, houve uma manhã em que um velhote me travou debaixo das arcadas da Praça do Giraldo e disse assim, com ar muito sério e voz dura:

– Desculpe, fala português?

Eu disse que sim e ele continuou, ainda mais grave e autoritário:

– Aqui você é obrigado a cumprir a lei.

Fiquei atónico, não percebi qual seria o problema, até que ele concluiu:

– Para circular aqui é obrigatório dar a mão à sua mulher.

Assim fizemos e ele sorriu.

Antes de terminar, volto ao incêndio no hotel em Dublin. Foi um falso alarme e ainda bem, pois a saída de emergência para onde nos deslocámos estava bloqueada, coisa que enfureceu um ex-bombeiro norte-americano, que chegou ao corredor em pijama e descalço, ainda assim depois de mim, apesar de eu ter demorado tanto tempo a calçar as botas. O gajo não se conteve e foi apresentar queixa à administração.

– You are in big trouble! – Dizia ele.